Lisboa aprovou: o que a deliberação de 21 de outubro diz e o que continua por demonstrar
Pontos-chave
- Está aprovado. A 21 de outubro de 2026 a Câmara de Lisboa deliberou suspender a operação das trotinetes partilhadas e interditar a sua circulação e estacionamento no espaço público municipal, por «resolução unilateral, por razões de interesse público» do acordo de 2023 com os operadores.
- Ainda não é definitivo. Os operadores têm 10 dias de audiência prévia por escrito; sem pronúncia, a deliberação «converte-se em definitiva». Depois, 60 dias para retirar tudo, com remoção coerciva à custa dos operadores se não o fizerem.
- Votos: contra, Livre e os dois vereadores da IL; abstenção de PS, BE e PCP; a favor, PSD, CDS-PP e independentes (três fontes juntam o Chega, duas não o mencionam).
- O prazo não é «final do ano» sem mais: 60 dias contados de 21 de outubro dariam 20 de dezembro, mas a contagem só começa com a notificação formal, e a Câmara aponta para janeiro de 2027.
- Surgiram números novos (documento da Câmara obtido pelo DN): 267 pessoas levadas ao hospital em 2025 contra 184 em 2023. Continuam sem denominador e, segundo o DN, sem distinguir partilhadas de particulares.
- A IL, parceira do presidente, votou contra: reconhece os problemas mas diz que não foi demonstrado que a suspensão fosse necessária nem que as alternativas estivessem esgotadas (§7). A votação não seguiu esquerda-direita (§8): IL e Livre contra, Chega a favor, PS/BE/PCP abstidos; com 9 votos contra 8 a favor se estes tivessem votado contra, a abstenção foi condição aritmética da aprovação, não prova de apoio.
- O referendo do ACP tem cerca de 20 mil assinaturas na Assembleia Municipal. O presidente do ACP diz que «morre» se a suspensão avançar; não localizámos decisão da Assembleia Municipal.
- Para as bicicletas: a deliberação não altera o Código da Estrada. Prevê reforço da mobilidade ciclável e um Regulamento Municipal para a Mobilidade Suave «no prazo de um ano». Sem metas, orçamento nem calendário localizados.
O que isto significa para quem anda de bicicleta: é uma decisão municipal sobre operadores, não uma mudança às regras das bicicletas. O que passa a existir é um precedente (um modo ligeiro retirado do espaço público com base em contagens da própria Câmara) e uma promessa de reforço ciclável ainda sem números. A pergunta que decide o saldo, para onde vão as viagens, continua sem dados.
Este artigo fecha a pergunta que deixámos em aberto em Lisboa quer acabar com as trotinetes partilhadas: a votação aconteceu. Regista o que foi aprovado, como se votou, o que mudou nos números e o que continua sem prova. Não tomamos partido pela medida nem contra ela e não atribuímos intenções. Tudo o que segue vem de imprensa (fontes no fim); não tivemos acesso ao texto da deliberação.
1. O que foi aprovado
| Elemento | O que as fontes dizem | Classificação |
|---|---|---|
| Decisão | «Suspender a operação e interditar, em todo o território do concelho de Lisboa, a circulação e o estacionamento, no espaço público municipal, dos veículos afetos a serviços de partilha de trotinetes elétricas por operadores privados» (proposta, citada pela Lusa) | FACTO (várias fontes concordam) |
| Base jurídica | «Resolução unilateral, por razões de interesse público» do acordo de colaboração de janeiro de 2023 com Bolt, Lime e Bird | FACTO (citação); o regime jurídico não foi por nós verificado |
| Fundamento | Falta de resultados em segurança, em particular dos peões, «apesar da redução do número de trotinetes partilhadas»; «aumento do número de reclamações e de ocorrências» | Alegação da Câmara (ver §4) |
| Procedimento | Audiência prévia por escrito, 10 dias; sem pronúncia a deliberação torna-se definitiva; 60 dias para retirar; remoção coerciva com custos para os operadores | FACTO (Lusa, Jornal Económico, TSF) |
| «Suspensão» ou fim? | O vice-presidente Gonçalo Reis disse à RTP, antes da votação: «não prevemos o regresso das trotinetas». A palavra do texto é «suspensão» | Declaração de responsável; o texto aprovado não prevê, nas peças lidas, data de regresso |
| Âmbito | Sistemas de partilha por operadores privados. As trotinetes particulares não são abrangidas | FACTO (pelo texto citado) |
| Complemento | Reforço da mobilidade ciclável e projeto de Regulamento Municipal para a Mobilidade Suave «no prazo de um ano», acolhendo contributos de PCP e BE (rede ciclável, GIRA) | Intenção; sem metas localizadas |
| Reunião | Privada, a 21 de outubro (Lusa) | FACTO |
2. Como se votou
A câmara tem 17 eleitos; a coligação PSD/CDS-PP/IL, com um independente, tem maioria absoluta (Notícias ao Minuto, via Lusa). Pelas fontes:
- Contra: os dois vereadores da IL (parceiro de coligação; análise dos argumentos em §7) e o vereador do Livre. A IL, em comunicado do seu grupo local, diz que a suspensão não está demonstrada como necessária e que havia alternativas menos restritivas; o Livre fala em «retrocesso claro» e em dúvidas legais e risco de pedidos de indemnização (declarações de parte, que não verificámos).
- Abstenção: PS, BE e PCP. O PS critica o «falhanço da política de regulação e fiscalização» e pede um plano urgente para a Gira; o BE diz que não é aceitável retirar cerca de 5.000 trotinetes sem alternativa pública suficiente; o PCP lamenta o chumbo de um estudo para integrar trotinetes na Gira.
- A favor: PSD, CDS-PP e independentes. Divergência entre fontes: Observador, Notícias ao Minuto e Razão Automóvel incluem o Chega, cujo vereador tinha dito antes, ao DN, «Votarei a favor»; Jornal Económico e TSF (Lusa) não o mencionam. Nenhuma das peças lidas dá a contagem oficial, pelo que não a apresentamos.
- Moratória chumbada: uma proposta de moratória de seis meses às trotinetes em ruas sem ciclovias segregadas foi rejeitada, com votos de PSD/CDS-PP/IL e Chega (Notícias ao Minuto). O Livre propunha ainda, em alternativa, a concessão por concurso (DN).
3. Os prazos, com a conta feita
As peças falam em «até ao final do ano» (títulos da Lusa) e em «janeiro de 2027» (expectativa da Câmara). Não são contraditórios, mas dependem de quando começa a contar:
- CÁLCULO: 60 dias a contar de 21 de outubro terminam a 20 de dezembro. É isto que o «final do ano» sugere.
- Mas a Câmara diz que os 60 dias contam após a notificação formal, que segue a audiência prévia de 10 dias e a conversão em decisão definitiva. Com a notificação em novembro (assim o Observador apresentou o calendário a 19 de outubro), a retirada integral cai em janeiro de 2027, que é o que a Câmara afirma esperar.
- DESCONHECIDO: a data da notificação e a eventual impugnação pelos operadores. Se contestarem, o calendário pode mudar; não localizámos a posição dos operadores após a votação.
4. Os números que a Câmara trouxe, e o que lhes falta
Até 20 de outubro as alegações eram duas (cerca de 1.200 recolhas por mês e +80% de acidentes desde 2023). O DN obteve entretanto um documento da Câmara com dados do INEM:
| Indicador (alegação da Câmara, dados INEM) | 2023 | 2025 | Projeção 2026 |
|---|---|---|---|
| Lisboa: pessoas levadas ao hospital | 184 | 267 | 331 |
| … das quais em risco de vida iminente | 12 | 24 | n/d |
| … com assistência médica | 172 | 243 | n/d |
| Portugal: pessoas levadas ao hospital | 987 | 2.527 | n/d |
- CÁLCULO: em Lisboa, 267/184 ≈ 1,45, isto é, cerca de +45% entre 2023 e 2025 (não os 80% anunciados antes; não conseguimos reconciliar o documento com a alegação anterior). Os casos graves passam de 12 para 24, números pequenos, sensíveis a poucos casos.
- Sem denominador: nem viagens, nem frota, nem período de exposição. Sem eles, mais ocorrências podem refletir mais risco por viagem ou simplesmente mais viagens (porquê).
- Não distingue partilhadas de particulares: o DN assinala que os dados do INEM não o especificam. A deliberação diz que a falta de resultados se verifica «apesar da redução do número de trotinetes partilhadas», mas, se o indicador também conta particulares, a redução das partilhadas não explica nem desmente a evolução. É o problema da classificação em três tipos.
- Recolhas: Moedas fala em «mais de mil» por mês; a legenda do DN refere 8.714 até ao final de julho. Os períodos de base não coincidem entre o texto e a legenda e não sabemos que fração das trotinetes recolhidas pertence às partilhadas.
- Frota: o ACP fala em cerca de seis mil trotinetes partilhadas na cidade, o BE e a Razão Automóvel em cerca de cinco mil. Nenhum número é oficial nas peças lidas.
- Idades: o documento regista 5 casos com crianças até 9 anos em 2025 (projeção de 13 em 2026) e 44 casos de maiores de 18 anos levados ao hospital (projeção de 77). Os menores entre 10 e 17 anos não constam das peças lidas, pelo que o «problema gravíssimo» com menores, invocado por Moedas, continua sem número que o sustente.
O Livre acusa a maioria de usar os dados de sinistralidade de forma «seletiva e alarmista» (declaração de parte). O que este artigo regista é mais simples: os números novos mostram crescimento de ocorrências, mas não permitem concluir risco por viagem, nem que a suspensão o reduza.
5. O referendo do ACP
- FACTO: o ACP entregou cerca de 20 mil assinaturas à Assembleia Municipal a 19 de outubro (mínimo, 5.000). Segundo a Razão Automóvel, a Assembleia tem de analisar e decidir e, se avançar, segue-se o Tribunal Constitucional; suspensão e referendo são «procedimentos distintos».
- O presidente do ACP, Carlos Barbosa, disse que, se a suspensão avançar, o processo «morre porque já não tem razão de existir» (declaração do promotor).
- O PS acusa Moedas de ter proposto a suspensão para «tirar gás» ao referendo (Observador, via Lusa, 22 de outubro). A Câmara nega e diz ter decidido de forma independente. Nenhuma das duas versões é verificável com documentos; a sequência de datas é facto, a intenção não.
- DESCONHECIDO: o destino do referendo na Assembleia Municipal. Não localizámos qualquer decisão entre 21 e 23 de outubro.
6. O que muda para quem anda de bicicleta
| Questão | O que se pode afirmar | Classificação |
|---|---|---|
| As regras das bicicletas mudam? | Não. A deliberação é municipal e incide sobre operadores de partilha | FACTO |
| Haverá mais bicicletas e Gira? | A Câmara promete apostar nas bicicletas (Moedas à Lusa: «já temos duas mil bicicletas»); a deliberação prevê reforço da mobilidade ciclável e um regulamento em um ano. Sem metas, orçamento nem calendário localizados | Intenção; DESCONHECIDO quanto ao efeito |
| A Gira aguenta a procura adicional? | O BE avisa que a retirada «vai aumentar a pressão» sobre uma rede que já enfrenta falta de bicicletas; a situação da Gira está documentada | Declaração de parte + factos documentados anteriormente |
| Para onde vão as viagens? | Bicicleta, Gira, transporte público, a pé ou automóvel: não existem dados de substituição modal em Lisboa. O que mostram outras cidades não se transfere sem avaliação local | INFERÊNCIA / DESCONHECIDO |
| Precedente | A Câmara usou contagens sem denominador, com o município como fonte. Que o critério seja aplicado a outros modos não é facto nem previsão | INFERÊNCIA |
| As «outras cidades» | O comunicado da Câmara cita Paris, Madrid e Bruxelas; Moedas cita também Nova Iorque. Paris e Madrid estão analisados no artigo ligado acima; Bruxelas e Nova Iorque não os verificámos | Alegação; parcialmente por verificar |
7. Os argumentos da IL: onde coincidem com o que defendemos e o que falta
A IL integra a coligação de Carlos Moedas e votou contra a proposta do próprio executivo. O que se conhece da posição vem de um comunicado do seu grupo local, citado em partes pela Lusa/Executive Digest e pelo ECO; não tivemos acesso ao comunicado integral. O Observador escreve que o comunicado «não justifica» o voto e apenas reconhece alguns argumentos do presidente; o ECO e o Executive Digest citam argumentos extensos, pelo que a versão que lemos pode não ser a mesma que chegou a todas as redações. Segundo o ECO (fonte anónima), os vereadores da IL não intervieram no debate.
| Argumento da IL (citado) | O que coincide com o que o site documenta | O que falta ou não se aplica |
|---|---|---|
| Reconhece «estacionamento indevido, circulação irregular e utilização inadequada» | O mesmo ponto de partida do artigo: o problema existe e os operadores também o reconhecem | Não quantifica, tal como a Câmara. Os danos a peões e pessoas com mobilidade reduzida invocados por Moedas não são respondidos |
| Não foram apresentados elementos de que os «mecanismos atualmente disponíveis de regulação, fiscalização e correção se revelaram insuficientes» | É a nossa objeção central: alegações sem viagens, frota nem período de base (§4); a Câmara diz que as soluções intermédias não deram resultado, sem avaliação publicada | O argumento vale nos dois sentidos: também não há dados de que as alternativas funcionariam em Lisboa. A IL lembra uma deliberação unânime de 2022 sobre regulamentação das partilhadas «ainda não concretizada» (alegação sua, não verificada), o que, se for exato, mostra que a regulação previsível nunca chegou a ser testada, mas também uma falha do próprio município |
| Alternativas: obrigações aos operadores, georreferenciação, zonas de estacionamento obrigatório, limitação automática de velocidade, áreas condicionadas, recolha de dados, melhor fiscalização, «metas concretas de cumprimento» | Coincide com a «escada de proporcionalidade» de Risco ou visibilidade? e com o que os operadores propuseram em agosto. Não são ideias novas; faltava só quem as pusesse ao lado da decisão | Sem metas numéricas (a IL fala em «metas concretas» sem as dar), sem custo, sem dizer quem fiscaliza e sem experiência local que mostre que funcionam. As medidas atuam sobre as partilhadas: nem elas nem a suspensão tocam nas trotinetes particulares, ilegais ou não (pelo menos 6 das 11 mortes em particulares) |
| A suspensão exige «demonstração clara da sua necessidade e da inexistência de soluções menos restritivas» | É o critério de proporcionalidade que usamos (ver Antes de proibir), sem tomar posição pela medida | Não diz que prova bastaria nem quem a faria. Sem indicadores de sucesso fixados antes, qualquer lado reivindica o resultado |
| Sinal «contraditório» face à mobilidade suave e à neutralidade climática em 2030 | Coincide com a nossa pergunta «para onde vão as viagens?» (§6) | O argumento pressupõe que as viagens saem de modos sustentáveis (a pé, bicicleta, transporte público) para o automóvel. INFERÊNCIA: não há dados de substituição modal em Lisboa; se vêm do automóvel ou da caminhada, o saldo muda |
| Prejuízo para titulares do passe Navegante (200 minutos mensais gratuitos, até 10 minutos por viagem) | É um efeito concreto sobre utilizadores, em regra ausente da discussão | Alegação da IL, não verificada por nós; não sabemos quantas viagens usam o benefício |
| Falta de diálogo e de concertação com os operadores | Coincide com a sequência documentada em «Tratada como feita antes de ser discutida» e com o título do Expresso sobre a Bolt | A Câmara diz ter reunido com os operadores antes da votação; as duas versões não são reconciliáveis com as fontes lidas |
O que falta no conjunto da posição: números (viagens, frota, acidentes por tipo); o que fazer com as particulares; o papel da Gira e da rede ciclável, que a IL não menciona nas citações que lemos; e o que a IL propõe se as metas não forem cumpridas (a gradação que a própria proporcionalidade pede: avisos, limites de frota, suspensão por zonas ou por operador, retirada). Não encontrámos o argumento de «mercado livre» como tal no comunicado.
8. A bicicleta não é de esquerda nem de direita
A votação não seguiu o eixo esquerda-direita, e isso decide mais sobre o que vem a seguir do que o nome dos partidos.
- Votou contra um partido liberal (IL, coligação do presidente) e um partido de esquerda (Livre). Votou a favor o PSD do presidente, o CDS-PP e, segundo três fontes, o Chega. PS, BE e PCP abstiveram-se.
- O mesmo espectro dos dois lados do argumento climático: a IL e o Livre invocam a mobilidade suave; o Chega, segundo o Observador, diz ter sido «o único» partido contra o aumento da mobilidade suave; o PSD propõe suspender as trotinetes e, ao mesmo tempo, promete apostar nas bicicletas.
- O mesmo acontece noutros dossiers do site: o projeto de lei do capacete foi do PSD (622/XVII) e do PS (774/XVII) e a resolução do PS na mesma data pediu estudar capacetes descartáveis na Gira (quem a lei atinge).
«A esquerda viabilizou»: o que a aritmética mostra e o que não mostra
O ECO titulou que a «esquerda viabilizou o fim das trotinetas» e que a IL «arriscou deixar Moedas apeado». O argumento é aritmético:
- CÁLCULO (ECO e nosso, com 17 vereadores): o executivo tem 9 votos (8 PSD/CDS-PP/IL, mais um independente). Sem os 2 da IL, ficam 7; com o Chega, 8. Contra, mais PS (4), BE (1), Livre (1) e PCP (1), mais os 2 da IL, somariam 9. Isto é, se PS, BE e PCP tivessem votado contra em vez de se absterem, a proposta teria sido chumbada (9 contra 8, ou 9 contra 7 se o Chega não tivesse votado a favor). O resultado concreto (8 a favor, 3 contra, 6 abstenções) é cálculo nosso, porque nenhuma fonte dá a contagem.
- Qualificações: (a) a regra de maioria aplicável não foi por nós verificada; (b) abstenção não é aprovação: o PS diz ter sabido da proposta pela imprensa e exigir investimento «sério e urgente» na Gira; o BE diz que não é aceitável retirar trotinetes sem alternativa pública; (c) BE e PCP conseguiram que a proposta incluísse o reforço da mobilidade ciclável e o regulamento em um ano, o que explica parte da abstenção sem que o possamos afirmar (não atribuímos intenções); (d) o Observador enquadra a mesma votação de outra forma (o presidente conseguiu aprovar «apesar do voto contra de parceiros»).
- FACTO: com este resultado, a medida foi aprovada sem que nenhum partido da oposição de esquerda a tenha votado a favor, e sem que a IL, parceira do presidente, a tenha apoiado. Não é facto que tenha sido a esquerda a «decidir»: o executivo tinha a iniciativa, a maioria nominal e o apoio do Chega.
Opinião (do autor, identificada como tal): a lição para quem anda de bicicleta é que nenhum bloco partidário é «dono» da bicicleta: há quem a defenda à direita e à esquerda, e quem a trate como secundária nos dois lados. Uma abstenção pode ser uma decisão política, mas só se traduz em bicicletas se vier acompanhada de metas, orçamento e calendário. Neste caso, o que ficou escrito foi «reforço» e «regulamento em um ano», sem números. É essa parte, e não a etiqueta partidária, que se pode acompanhar, e que a IL, o Livre, o BE, o PCP, o PS e o PSD podem exigir em conjunto. Se a pergunta for «quem defende mais bicicletas?», a resposta mensurável será quem votar, daqui a um ano, metas, orçamento e fiscalização.
9. O que acompanhar a partir de agora
- O texto integral da deliberação e da ata (para confirmar fundamentos, prazos e se existe data de regresso).
- A pronúncia dos operadores na audiência prévia e qualquer impugnação.
- A data da notificação formal e, daí, o fim dos 60 dias.
- O destino do referendo na Assembleia Municipal.
- Se aparecem viagens, frota e acidentes por tipo de trotinete (partilhada, particular legal, ilegal) e a fonte dos números do INEM.
- O Regulamento Municipal para a Mobilidade Suave: texto, metas e orçamento da rede ciclável e da Gira.
- Os indicadores antes/depois propostos em Risco ou visibilidade?, com revisão prevista para abril e outubro de 2027.
Leituras relacionadas
- Lisboa quer acabar com as trotinetes partilhadas — a polémica antes da votação, os argumentos um a um e a Gira.
- Retirar as trotinetes partilhadas: o que esperar — cenários e o que outras cidades mostram.
- Antes de proibir: seis perguntas — o que falta responder antes de decisões deste tipo.
- Risco ou visibilidade? — denominadores e tabela de acompanhamento.
- O contágio legislativo — o que pode atravessar das trotinetes para as bicicletas.
Referências
- Jornal Económico (Lusa), 21 de outubro de 2026 — texto da decisão, votos, procedimento. Lido a 23 de outubro de 2026.
- TSF (Lusa), 21 de outubro de 2026 — idem; os títulos relacionados (Bolt «exagerada») não foram lidos.
- Notícias ao Minuto (Lusa) — posições de IL, Livre, BE, PCP e Chega; composição da câmara; moratória chumbada. Lido a 23 de outubro de 2026 (a página indica 21 e 22 de outubro).
- Observador (Lusa), 22 de outubro de 2026 — posição do PS e acusação sobre o referendo.
- ECO, Alexandre Batista, 21 de outubro de 2026, «IL arriscou deixar Moedas “apeado”. Esquerda viabilizou fim das trotinetas em Lisboa» — cenário de votos, voto do Chega, citações do comunicado da IL. Lido por extração a 23 de outubro de 2026.
- Executive Digest (Lusa), 21 de outubro de 2026, «IL contraria parceiros de governação em Lisboa…» — comunicado da IL (alternativas tecnológicas, passe Navegante, deliberação de 2022) e composição da câmara.
- Observador (Lusa), 21 de outubro de 2026 — votação, texto da proposta, posições do Livre, BE e Chega; nota de que a IL «não justifica» o voto.
- DN, David Pereira, 21 de outubro de 2026 — deliberação; declaração de Moedas.
- DN, Carlos Ferro, 20 de outubro de 2026, «Trotinetas. 267 acidentes com ida ao hospital e mais de oito mil retiradas das ruas» — dados do documento da Câmara (INEM), posições do Livre, BE, PS, Chega.
- Razão Automóvel, 22 de outubro de 2026 — referendo, Assembleia Municipal e Tribunal Constitucional.
- DN/Lusa, 19 de outubro de 2026 — ACP e assinaturas.
- RTP (Lusa), «Autarca de Lisboa promete apostar nas bicicletas após suspensão de trotinetes» — declarações de Moedas (data não visível na página lida; a peça é anterior à votação).
- RTP Antena 1, «Não prevemos regresso» — Gonçalo Reis, prazos (anterior à votação).
Critério documental: distinguimos factos demonstrados pelas fontes, cálculos reproduzíveis, inferências marcadas como tais e informação que não foi possível confirmar. «Não localizámos» não equivale a «não existe». Os dados provêm de imprensa (maioritariamente Lusa) lida a 23 de outubro de 2026; não consultámos a deliberação, a ata nem o documento da Câmara. As posições dos partidos, do ACP e da Câmara são declarações de parte. Os valores de hospitalização são da Câmara, a partir de dados do INEM, e não foram confirmados de forma independente.
