Quem o Parlamento ouve quando fala de segurança rodoviária?

Audições e audiências: quem entra na comissão e quem fica de fora

Pontos-chave

  • As presenças que conseguimos documentar entre 2009 e 2026 sugerem um padrão: órgãos do Estado e associações estabelecidas entram com frequência; associações de utilizadores entram quando o tema é «deles».
  • Em 2014, o Fórum Parlamentar sobre segurança rodoviária ouviu diretamente automobilistas (ACP), transportadores (FECTRANS), ciclistas (FPCUB) e ensino de condução (ANIECA), ao lado da PRP. Em 2026, sobre prevenção rodoviária em geral, a «sociedade civil» ouvida foi apenas a PRP e a GARE.
  • No mesmo ano, sobre TVDE, o Parlamento ouviu operadores, trabalhadores, táxis, plataformas, consumidores, reguladores e Governo — uma representação muito mais ampla dos interesses afetados.
  • Esta página mede acesso ao Parlamento, não prova de influência sobre o conteúdo das leis.

Ser ouvido no Parlamento não decide uma lei, mas é uma das portas por onde as posições entram no processo legislativo. Quem é ouvido ganha a oportunidade de enquadrar o problema antes de os deputados votarem. Por isso vale a pena olhar para o registo: quem entra na comissão quando o tema é segurança rodoviária?

A tabela abaixo é o que conseguimos documentar nos registos da Assembleia da República. Não é exaustiva e distingue três formas diferentes de estar presente, porque contam histórias diferentes: ser chamado pelo Parlamento demonstra reconhecimento institucional; uma audiência pedida e concedida no âmbito de um processo legislativo demonstra iniciativa de quem quer ser ouvido; um contributo escrito é a forma mais fraca de presença. Quando não conseguimos confirmar o mecanismo, dizemo-lo.

O historial que encontrámos

AnoContextoChamadas pelo ParlamentoAudiências pedidas e concedidasContributos escritos
2009 Segurança rodoviária — ACP, escolas de condução, APSI (segurança infantil), seguradoras, FPCUB, Plataforma da Bicicleta * —
2013 PPL 131/XII — alteração do Código da Estrada ANSR, IMT, GNR, PSP * mUBi (10 maio), FPCUB (10 maio), Quercus (21 maio) FPCUB entregou documentação ao Grupo de Trabalho
2014 Fórum Parlamentar «A segurança rodoviária vista por quem a pratica» Painel sociedade/prática: PRP, ACP, FECTRANS, FPCUB, ANIECA. Painel regulação e fiscalização: IMT, PSP, GNR. Apresentações: ANSR, Centro Rodoviário Português, Estradas de Portugal — —
2017 Segurança dos ciclistas — Estrada Viva, Federação Portuguesa de Ciclismo, mUBi —
2026 Prevenção rodoviária — audições a requerimento do Chega, 24 de fevereiro GARE (11h), PRP (12h), ANSR (15h), AMT (16h) — Consulta pública aberta sobre o PL 622/XVII/1.ª
2026 TVDE — Associações TVDE, táxis, FECTRANS, AMT, IMT, ANSR, Uber, Bolt, DECO, Governo, ACT —

* Forma de participação não confirmada nas fontes consultadas: não determinámos se cada presença resultou de iniciativa da comissão ou de pedido da entidade.

A comparação que interessa: 2014 vs. 2026

2014 — Fórum Parlamentar

«A segurança rodoviária vista por quem a pratica»

  • PRP — prevenção
  • ACP — automobilistas
  • FECTRANS — trabalhadores dos transportes
  • FPCUB — utilizadores de bicicleta
  • ANIECA — ensino de condução

2026 — Prevenção rodoviária

«Sociedade civil» ouvida a 24 de fevereiro

  • GARE
  • PRP
  • Peões: nenhum representante
  • Ciclistas: nenhum representante
  • Motociclistas e vítimas: nenhum representante

O Parlamento já considerou necessário ouvir diretamente automobilistas, trabalhadores dos transportes, utilizadores de bicicleta e o ensino de condução num debate geral sobre segurança rodoviária. O que mudou entre 2014 e 2026?

O contraste: TVDE, 2026

No mesmo Parlamento, no mesmo ano, o processo legislativo sobre os TVDE mostrou que é possível fazer diferente: as audiências registadas cobriram praticamente todos os grupos afetados — operadores e trabalhadores das plataformas, o setor do táxi, as próprias Uber e Bolt, a DECO pelos consumidores, e do lado público a ANSR, o IMT, a AMT, o Governo e a ACT.

A pergunta fica praticamente feita: porque é que o Parlamento consegue assegurar uma representação extensa dos interesses afetados numa matéria setorial como o TVDE, mas numa matéria transversal como a prevenção rodoviária chamou apenas a PRP e a GARE para dar «voz à sociedade civil»?

Como ler esta lista

  • Esta lista mede acesso. Não prova que alguma entidade tenha influenciado o conteúdo de uma lei — para isso seria preciso comparar propostas, alterações e votos, o que não fizemos.
  • Em 2013, mUBi, FPCUB e Quercus foram audiências no processo legislativo da alteração do Código da Estrada: entidades recebidas porque o tema lhes dizia respeito diretamente.
  • Em fevereiro de 2026 foram audições a requerimento do Chega: a escolha das entidades partiu de um partido, não da comissão — o que muda a pergunta de «quem a comissão escolhe» para «quem os partidos acham que deve falar».
  • Em 2017, quando o tema era a segurança dos ciclistas, o Parlamento ouviu quem representa ciclistas e vítimas. Quando o tema é a prevenção rodoviária em geral — que afeta todos os utentes — os mesmos grupos desaparecem da sala.

O que se pode dizer com segurança é mais modesto e mais importante: num tema que afeta todos os que usam a estrada, a porta do Parlamento abre com mais facilidade para quem já é interlocutor habitual. Os grupos que representam uma parte grande das vítimas — peões, ciclistas, motociclistas, famílias — entram quando o tema é estreito e saem do quadro quando é geral.

O caso concreto em que encontrámos esta pergunta está em Capacete obrigatório: quem não está na sala. E para perceber por que a PRP ocupa este lugar, ver Quem manda na PRP? e PRP ou ANSR?.

O que propor

  • Publicação sistemática, por iniciativa, de quem foi ouvido, a pedido de quem e com que contributo.
  • Em matérias transversais, um mínimo de representação dos grupos afetados: peões, ciclistas, motociclistas, vítimas e utilizadores profissionais.
  • Tratamento equivalente entre contributos escritos e audições presenciais — e justificação pública quando um grupo afetado não é ouvido.

Referências

Critério documental: distinguimos factos demonstrados pelas fontes, inferências que resultam desses factos e informação que ainda não foi possível confirmar. A ausência de prova pública é apresentada como uma questão em aberto, não como prova de inexistência.