As ciclovias não servem para nada?
Dizer que "as ciclovias não servem para nada" ignora um ponto central: Portugal continua entre os países europeus que menos investem em infraestrutura ciclável de forma consistente.
O problema não é excesso de ciclovias, é falta de rede
Quando comparamos com Holanda, Dinamarca, Bélgica, Alemanha e várias cidades espanholas e francesas, a diferença é estrutural:
- redes contínuas;
- segregação física;
- cruzamentos pensados para bicicletas;
- investimento ao longo de décadas.
Em Portugal, ainda predominam troços isolados, ligações incompletas e marcações no chão sem continuidade utilitária.
Crítica frequente, diagnóstico errado
Muitas vezes critica-se a "falha das ciclovias" quando, na prática, quase não existe rede ciclável funcional em malha.
Se a infraestrutura começa e acaba sem lógica, não é um teste justo da eficácia de uma rede: é um teste da descontinuidade.
Espaço urbano: comparação correta
Uma estrada cheia de carros e uma ciclovia aparentemente menos ocupada podem dar uma impressão enganadora.
- o automóvel ocupa muito espaço em circulação e estacionamento;
- transporta poucas pessoas por veículo em média;
- exige grandes áreas por pessoa transportada.
Já a bicicleta usa uma fração dessa área. Em capacidade por metro quadrado urbano, pode transportar muito mais pessoas.
Eficiência e congestionamento
Uma ciclovia com o mesmo número de pessoas por hora de uma faixa automóvel pode exigir uma parcela muito menor do espaço urbano disponível.
Foi por isso que cidades congestionadas investiram em mobilidade ativa e transporte público: não por ideologia, mas por limitação física das cidades.
"Ainda há acidentes, logo não funciona" é erro lógico
Dizer que ciclovias não servem porque ainda há acidentes é o mesmo tipo de erro que dizer que passadeiras, cintos ou airbags não servem porque acidentes continuam a existir.
A pergunta correta é: comparando com antes, o risco aumentou ou diminuiu?
A evidência internacional aponta para:
- redução de acidentes graves em infraestrutura segregada;
- redução de mortalidade;
- aumento do uso da bicicleta;
- melhoria da segurança para todos os utentes.
Criticar más obras é legítimo
Sim, há más obras, falta de manutenção e projetos descontínuos. Isso deve ser criticado.
Mas criticar execução fraca não é prova de que a infraestrutura ciclável seja inútil. É prova de que o desenho e a continuidade precisam de melhorar.
O que mostram as cidades com melhor desempenho urbano
As cidades europeias com menos trânsito, menos mortalidade rodoviária e melhor qualidade de vida investiram mais em:
- ciclovias;
- passeios confortáveis;
- transporte público;
- redução da dependência do automóvel.
Conclusão
A frase "as ciclovias não servem para nada" simplifica demasiado um problema de rede, desenho e escala de investimento.
Quando há continuidade, segurança e ligação a destinos reais, as pessoas usam. E quando usam, as cidades tornam-se mais eficientes, mais seguras e mais habitáveis.
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