Três veículos tratados como se fossem um
Pontos-chave
- «Trotinete» no debate público mistura três veículos diferentes: a partilhada regulada, a particular legal e o veículo de alta velocidade que está fora da categoria legal.
- A lei portuguesa equipara a trotinete a velocípede quando cumpre os limites (designadamente velocidade máxima de 25 km/h); acima disso, o veículo sai desse enquadramento.
- À venda em Portugal existem modelos anunciados a 80–140 km/h — ilegais na via pública e fisicamente mais próximos de um motociclo do que de uma bicicleta.
- Qualquer estatística, medida ou proibição que trate os três como um só mede a média de coisas diferentes — e nenhuma delas.
Esta página é a chave de classificação de todo o subdossier. Antes de falar de mortes, risco ou regulamentação, importa fixar a distinção que os dados portugueses sistematicamente esmagam: nem toda a «trotinete» numa notícia, num registo policial ou numa proposta de lei é o mesmo veículo.
1. A partilhada regulada
A trotinete de operador partilhado (Bolt, Lime, Dott e congéneres) é o membro mais controlado da família:
- limitação eletrónica de velocidade — tipicamente 20–25 km/h, imposta pelo veículo e não pela boa vontade do utilizador;
- operador identificável — há uma entidade que responde, tem seguro e pode ser responsabilizada;
- regras contratuais — idade mínima, um utilizador por conta, condições de utilização;
- geofencing quando aplicável — zonas de velocidade reduzida, proibição de circulação ou de estacionamento impostas por GPS;
- manutenção organizada — pneus, travões e bateria inspecionados por uma frota, não pelo acaso do dono.
É também o único subgrupo para o qual existem denominadores de exposição em alguns mercados: os operadores contam viagens, e as associações europeias de operadores publicam totais anuais.
2. A particular legal
A trotinete particular que cumpre os requisitos legais é, juridicamente, equiparada a velocípede — o regime do artigo 112.º do Código da Estrada aplica-se a trotinetes com motor elétrico até 25 km/h (e dispositivos equiparados). Em termos de energia e comportamento é o parente mais próximo da bicicleta, com diferenças reais mas modestas: rodas mais pequenas, centro de gravidade e travagem diferentes, plataforma em vez de selim.
A diferença decisiva em relação à partilhada não é jurídica — é de controlo: não há operador a limitar a velocidade, a verificar a manutenção ou a excluir utilizadores. A conformidade depende inteiramente do comprador.
3. O veículo ilegal / fora da categoria
E depois há o veículo que as estatísticas e o debate tratam como «trotinete» mas que a lei não: modelos com potência e velocidade que os retiram da equiparação a velocípede. A auditoria de mercado feita para o artigo O alvo fácil encontrou, num único retalhista online:
- filtro «100 km/h ou mais» com 35 modelos; a faixa 90–99 km/h tinha mais;
- preços de ~1.460 € (10.000 W, anunciado a 100–120 km/h) a ~18.600 €;
- anúncios sem referência ao limite legal de 25 km/h;
- registo noticioso de uma trotinete modificada a fugir à polícia a 104 km/h.
Fisicamente, um veículo de 10 kW a 100 km/h não é uma trotinete com problemas de comportamento — é um motociclo sem matrícula, sem seguro, sem carta e sem o enquadramento que impomos aos motociclos. O Expresso resumiu: «são quase motos sem assento».
Porque é que a distinção muda tudo
Três regimes, um nome: a mesma palavra cobre um veículo limitado por software e supervisionado por uma empresa, um velocípede legal e um veículo de 100 km/h que não devia estar na via pública. Quando a estatística diz «acidentes com trotinetes» sem desagregar, a média resultante não descreve nenhum dos três — sobrestima o risco das legais e subestima o dos ilegais.
- Nas estatísticas: pelo menos 6 das 11 mortes registadas em Portugal foram em trotinetes particulares — o grupo que inclui os ilegais (ver a página caso a caso).
- Na política: uma medida dirigida a «trotinetes» que atinge sobretudo as partilhadas reguladas pode estar a responder a um problema produzido por outro grupo — a matriz está em o que Portugal quer mudar.
- Na comparação: a trotinete ilegal de alta velocidade não deve ser comparada à bicicleta — a escada de comparação honesta está em trotinete, bicicleta, mota.
O que ainda queremos saber
- Que quota do parque circulante corresponde a veículos fora da categoria legal — não existe registo nem estimativa oficial publicada.
- Se os registos policiais de sinistros classificam o veículo (partilhada/particular, legal/ilegal) — os dados publicados não o mostram.
- Quantos dos modelos de alta velocidade à venda são efetivamente usados na via pública vs. em propriedade privada.
Leituras relacionadas
As mortes em trotinete, caso a caso
O risco é o mesmo? Partilhadas vs. particulares
Estamos a comparar veículos comparáveis?- O alvo fácil — a auditoria ao mercado dos modelos ilegais.
- Os números das trotinetes
Referências
- Código da Estrada, art. 112.º — equiparação de trotinetes com motor a velocípedes (até 25 km/h).
- Expresso (24 set. 2026) — «Mais de metade das mortes foram em trotinetas particulares: “São quase motos sem assento”».
- Auditoria ao catálogo online por velocidade máxima — O alvo fácil (consulta de 1 out. 2026).
Critério documental: distinguimos factos demonstrados pelas fontes, inferências que resultam desses factos e informação que ainda não foi possível confirmar. A ausência de prova pública é apresentada como uma questão em aberto, não como prova de inexistência.