Ilustração de um passeio de calçada portuguesa em duas metades: à esquerda, trotinetes partilhadas estacionadas à mistura com peões; à direita, o mesmo passeio livre, com ciclistas e uma lupa sobre um quadro de dados

Retirar as trotinetes partilhadas: o que esperar, o que aconteceu noutras cidades e porque faltam dados

O que prever, o que se viu noutras cidades e o que é preciso medir

Pontos-chave

  • Uma previsão não é um facto. Tudo o que se diz sobre Lisboa aqui é INFERÊNCIA ou DESCONHECIDO, e vem com o indicador que o verificaria. A medida ainda não foi votada (21 de outubro).
  • O que as outras cidades mostram com melhor suporte: menos desordem e menos veículos a obstruir passeios (Paris, segundo o Observatório Europeu da Mobilidade Urbana). O que não mostram: que a proibição reduza mortes ou feridos graves.
  • Paris tem dados abertos de vítimas por modo (2019–2024). Neles, as vítimas de trotinetes e afins (EDP-m) descem de 431 (2022) para 238 (2024), cerca de −45%, e nos 12 meses seguintes à proibição caem ≈33% face aos 12 anteriores. Mas a descida começou antes da proibição (Jan.–Ago. de 2023 já eram −20% face a 2022) e os dados não separam partilhadas de particulares.
  • Nos mesmos dados, os feridos hospitalizados a pé passam de 76 (2022) para 134 (2024) e, de bicicleta, de 46 para 67. Não sabemos porquê, e não há base para atribuir isso à proibição, mas mostra que o saldo global não se lê só no modo retirado.
  • Sem dados comparáveis não há estatística, há opinião com números. Para Lisboa faltam viagens, frota, classificação do veículo (partilhado/particular, legal/ilegal) e microdados abertos, que são exatamente o que permitiu fazer a análise de Paris.

O que isto significa para quem anda de bicicleta: o desfecho depende de para onde vão as viagens que deixam de ser feitas em trotinete partilhada. Se uma parte passar para bicicleta (em Paris e Madrid isso aparece como consequência), a procura sobe numa rede de Gira com falhas documentadas, e as contagens de ciclistas feridos subirão também por haver mais ciclistas, não necessariamente por maior risco. Sem denominador, uma subida dessas pode ser usada contra a bicicleta, tal como hoje se usam contagens contra as trotinetes. Por isso o artigo insiste no que se deve medir antes.

Este artigo responde a três perguntas, por ordem: o que é razoável esperar se Lisboa retirar as trotinetes partilhadas, o que aconteceu noutros sítios (incluindo uma análise nossa de dados abertos de Paris) e porque é que, sem dados, nenhuma resposta é fiável. Não tomamos partido pela suspensão nem contra ela. A polémica de Lisboa está em Lisboa quer acabar com as trotinetes partilhadas.

1. O que se pode prever: cenários, não factos

Uma previsão sobre uma cidade que ainda não decidiu só tem valor se disser em que se apoia e como se desmente. A tabela separa o que as outras cidades suportam do que fica por saber.

Efeito possível em LisboaEm que se apoiaEstadoIndicador que o confirma ou desmente
Menos trotinetes partilhadas mal estacionadas e menos recolhasParis e Madrid: menos desordem e menos obstrução de passeios (Observatório Europeu); é consequência quase direta de retirar a frotaINFERÊNCIA forteReclamações de passeios obstruídos por mil habitantes; recolhas de bicicletas, trotinetes particulares e mobiliário
Menos lesões entre quem usava partilhadasAritmética: menos viagens, menos exposição. Só é ganho líquido se as viagens não passarem para modos com mais risco por viagemINFERÊNCIA; saldo DESCONHECIDOUrgências e INEM por modo; vítimas por milhão de viagens, antes e depois
Parte das viagens passa para bicicletaParis e Madrid: aumento de procura de bicicletas partilhadas, sem causalidade provada. Em Lisboa, a Gira tem falhas documentadas, o que limita a absorçãoINFERÊNCIA; dimensão DESCONHECIDAViagens Gira e bicicletas particulares em contagens; inquérito aos antigos utilizadores
Parte das viagens passa para trotinetes particularesParis: as particulares continuaram; o Observatório Europeu nota propriedade privada elevada em França. Em Lisboa, as particulares ficam fora da medidaINFERÊNCIA (hipótese)Contagens de trotinetes particulares em avenidas; vendas; sinistralidade por tipo de veículo
Parte das viagens passa a pé, de transporte público ou de automóvelNenhuma das cidades consultadas demonstra aumento do automóvel causado pela proibição, nem o excluiDESCONHECIDORepartição modal antes e depois, com a mesma metodologia
Menos mortos e feridos graves na cidadeNenhuma das cidades consultadas demonstra efeito causal sobre mortes ou feridos gravesDESCONHECIDOMortos e hospitalizados por modo e por 100 mil habitantes/milhão de viagens, em janelas comparáveis, mais um grupo de comparação
O critério passa a servir para outros modosA decisão usa contagens sem denominador (ver o artigo de Lisboa). O mesmo raciocínio aplicado a outro modo daria a mesma conclusãoINFERÊNCIA (precedente)Os critérios formais que forem fixados na deliberação
Contencioso com os operadoresMadrid: a Lime contestou e anunciou recurso; em Lisboa a medida seria «resolução unilateral por razões de interesse público» (RTP)DESCONHECIDOTexto da deliberação; eventuais providências cautelares

2. O que aconteceu noutras cidades, em resumo

O detalhe, as fontes e o que ficou por confirmar estão em «Outras cidades já o fizeram». O que interessa aqui é o padrão.

CidadeO que foi decididoO que as fontes sustentamO que não sustentam
Paris (set. 2023)Fim das partilhadas, após consulta com baixa participação; particulares mantêm-seMenos desordem e obstrução de passeios; procura deslocada para bicicletas partilhadasEfeito sobre mortes ou feridos graves (ver §3)
Madrid (set. 2024)Revogação das licenças de Lime, Dott e Tier por incumprimentoBiciMAD +52% em jul.–ago. de 2025 (dado municipal)Que o aumento se deva à retirada: o mesmo documento fala em +44% de utilizadores ativos
Melbourne (ago. 2024)Fim antecipado dos contratos no centro (votação 6–4)Hospital relatou aumento de lesões antes da decisãoQualquer avaliação posterior
Montreal (2019–2020)Piloto não renovadoSó 20% das trotinetes estacionadas nos locais previstos; sem acidentes graves nem mortais no pilotoEfeito de proibir (o piloto terminou, não houve «depois» medido)

Padrão: as decisões documentadas invocam sobretudo estacionamento e incumprimento de condições. Nenhum dos casos traz uma avaliação de sinistralidade com denominador antes e depois. O único que conseguimos testar com dados abertos é Paris, abaixo.

3. Paris com dados abertos: o que se consegue tirar

A Cidade de Paris publica a base de vítimas de acidentes corporais (extraída do sistema nacional TRAxy/ONISR, que alimenta o ficheiro BAAC; licença ODbL). São 33.551 registos de vítimas, de 2019 a 2024, com data, modo da vítima, gravidade, idade, arrondissement e coordenadas. Consultámos a base pela API a 19 de outubro de 2026 e fizemos as contagens abaixo (CÁLCULO, reproduzível por qualquer pessoa com esse acesso).

Antes de ler os números: «EDP-m» é o modo da vítima para engins de déplacement personnel motorisés (trotinetes e afins; interpretação nossa da sigla). Não distingue partilhadas de particulares, que é exatamente a divisão da proibição. Conta vítimas, não o veículo responsável. Só inclui acidentes registados pelas autoridades. E acaba em 2024, pelo que só cobre os 16 meses seguintes à proibição.

3.1 Vítimas EDP-m por ano

AnoVítimasMortosFeridos hospitalizadosFeridos ligeiros
2019203213188
2020301018283
2021329113315
2022431325403
2023 (proibição a 1 set.)323131291
2024238124213

De 2022 para 2024: 431 → 238 vítimas (−45%). Os feridos hospitalizados, que são a medida de gravidade mais estável, mantêm-se: 25, 31 e 24. A descida está concentrada nos feridos ligeiros (403 → 213). As mortes são 1 a 3 por ano: números pequenos demais para qualquer comparação.

3.2 A descida começou antes da proibição

Os dados têm data ao dia. Comparámos as mesmas janelas do calendário, para retirar a sazonalidade:

Janela202220232024Variações
Janeiro a agosto (antes de 1 set. 2023)2832261522023 vs 2022: −20% (ainda sem proibição); 2024 vs 2023: −33%
Setembro a dezembro14897862023 vs 2022: −34% (com proibição); 2024 vs 2023: −11%
12 meses antes (set. 2022–ago. 2023) e 12 meses depois (set. 2023–ago. 2024)374 → 249−33%

Leitura: a descida foi maior nos meses com proibição (−34%) do que nos meses sem ela (−20%), o que é compatível com um efeito. Mas a tendência já era descendente antes: em 2023, de janeiro a agosto, havia menos 20% de vítimas do que no ano anterior, e 2022 é o pico da série (houve um aumento de 2019 a 2022). Contagens mensais de 12 a 48 casos oscilam muito ao acaso. Há também outras causas possíveis, que não medimos: a evolução da própria oferta de trotinetes, os limites de velocidade, as ciclovias, o clima e o hábito de reportar.

3.3 O que aconteceu aos outros modos

Modo da vítimaVítimas 2022Vítimas 2024VariaçãoHospitalizados 2022Hospitalizados 2024
EDP-m (trotinetes e afins)431238−45%2524
Bicicleta1.0251.047+2%4667
Peão1.1391.095−4%76134
Duas rodas motorizadas2.1921.520−31%146147
Quatro rodas998906−9%2030
Total5.7854.806−17%313402

O número total de vítimas desce 17%, mas os hospitalizados sobem 28% (313 → 402), com os peões (76 → 134) e os ciclistas (46 → 67) a subir. Não sabemos porquê, e não há base nos dados para o atribuir à proibição: pode refletir mais ciclistas e mais viagens a pé, mudanças no registo da gravidade, ou outros fatores. O que isto mostra é uma lição metodológica: olhar só para o modo retirado dá uma imagem enganadora do saldo. Mostra também o cuidado que as bicicletas merecem: se mais pessoas pedalam, há mais ciclistas feridos em números absolutos, sem que o risco por quilómetro tenha subido. Só o denominador distingue as duas coisas, e a base de Paris não o tem.

Resumo da análise (inferência marcada): os dados abertos de Paris são compatíveis com uma descida das vítimas de trotinetes depois da proibição, mas não demonstram que a proibição a causou, não separam partilhadas de particulares e não permitem concluir que a segurança global melhorou: os feridos hospitalizados a pé e de bicicleta aumentaram no mesmo período. Fica por analisar 2025, que não está na base.

4. Porque é que os dados mandam: sem eles, não há estatística

A análise de Paris só foi possível porque alguém publicou microdados com data, modo, gravidade e local. Mesmo assim, ficou limitada por lacunas. As lacunas de Lisboa são maiores, e é por isso que as alegações em circulação (≈1.200 recolhas por mês, +80% de acidentes, menores) não se conseguem verificar.

O que seria precisoPorque importaEm ParisEm Lisboa
Viagens e quilómetros por modo e por tipo (partilhada/particular)É o denominador: sem ele, contagens não são riscoNão está na base de acidentesNão localizámos para as partilhadas (os operadores têm-nos)
Classificação do veículo no acidente: partilhado/particular, legal/ilegal, potência e velocidadeA proibição só atinge um dos grupos; sem a classificação, não se sabe o que se está a medirSó «EDP-m»Dado nacional citado agrega bicicletas e trotinetes elétricas (PSP, 623 acidentes em 4 meses de 2025)
Microdados abertos: data, local, modo, gravidade, idadePermite a qualquer pessoa verificar, repetir e contestarSim (ODbL), de 2019 a 2024Não localizámos equivalente
Dados de saúde (urgências, internamentos) e não só da políciaOs acidentes sem intervenção policial, como quedas sem terceiros, tendem a ficar fora dos registos policiais (limitação conhecida, que não medimos aqui)Não incluídosHospitais citados pela imprensa, sem série pública localizada
Período de base e unidade (ano, época, mês; por 100 mil ou por milhão de viagens)«+80%» sem período e denominador não é informaçãoMês e dia disponíveisSem período nem base nas alegações
Grupo de comparaçãoPara separar o efeito da medida da tendência geral, é preciso uma cidade ou zona sem a medidaNão existe na basePor definir

Como se decide com factos: o mínimo antes de proibir (ou de não proibir)

  1. Fixar antes os indicadores de sucesso e a data de avaliação (ver o que deveria ser medido antes e depois). Escolher indicadores depois do resultado é o contrário de avaliar.
  2. Publicar a linha de base: viagens, frota, acidentes e recolhas por mês, desde 2023, em formato aberto. Quem decide e quem contesta ficam a olhar para os mesmos números.
  3. Classificar o veículo em todos os registos (partilhado/particular, legal/ilegal) e, no caso dos hospitais, o modo e o local da lesão.
  4. Medir o saldo, não o modo retirado: vítimas de todos os modos (peões, ciclistas, automóvel), como na tabela de Paris.
  5. Janelas comparáveis e grupo de comparação, para não confundir a medida com a tendência.
  6. Rever em prazo definido (por exemplo seis e doze meses) e publicar o resultado, mesmo se desfavorável.

A mesma exigência vale para quem defende e para quem contesta a medida. Também vale para as bicicletas: se um dia as contagens de ciclistas feridos subirem porque há mais ciclistas, só o denominador evita que o dado seja usado contra elas.

5. Conclusão

O que as fontes permitem afirmar: retirar frotas partilhadas reduz a desordem nos passeios (Paris, Madrid) e a procura desloca-se em parte para bicicletas partilhadas; em Paris, as vítimas EDP-m desceram depois da proibição. O que não permitem afirmar: que a proibição seja a causa dessa descida, que reduza mortes ou feridos graves, ou que a segurança global melhore: os hospitalizados a pé e de bicicleta aumentaram no mesmo período. O que fica por saber para Lisboa: tudo o que depende de viagens, frota e classificação do veículo, que ainda não são públicos. A decisão pode ser legítima por razões de espaço público; o que este artigo defende é que, se se invoca a segurança, é preciso mostrar os dados e medir o resultado.

Estado a 19 de outubro de 2026: medida anunciada, não aprovada (votação a 21 de outubro). Após a reunião, este artigo será atualizado com a deliberação, os fundamentos e os indicadores, se existirem. Dados de Paris para 2025 serão acrescentados quando estiverem na base.

Referências

Critério documental: distinguimos factos demonstrados pelas fontes, cálculos reproduzíveis, inferências marcadas como tais e informação que não foi possível confirmar. «Não localizámos» não equivale a «não existe». As contagens de Paris são um cálculo nosso sobre os dados abertos, feito com a ferramenta de consulta da própria plataforma; não foram revistas por terceiros. As variações percentuais são arredondadas. «EDP-m» é interpretação nossa da sigla. Os cenários da secção 1 são inferências e não previsões quantitativas. Nada neste artigo atribui intenções a qualquer entidade. Fontes consultadas em 19 de outubro de 2026.