Cada número nasce de uma fonte — e cada fonte mede uma coisa diferente
Pontos-chave
- Os números oficiais de sinistralidade em Portugal nascem do registo policial (PSP e GNR) e são compilados e publicados pela ANSR.
- Há outras fontes que medem coisas diferentes: hospitais (vítimas tratadas), seguradoras (sinistros com seguro), Comissão Europeia (comparação internacional, mortos a 30 dias).
- «Morto a 30 dias» é a definição internacional — não significa morto no local nem no dia do acidente.
- Números absolutos de vítimas não são risco: sem denominador de exposição (viagens, quilómetros, horas), não se pode comparar a perigosidade de dois modos de transporte.
Quando uma notícia diz «morreram X pessoas nas estradas», quando um projeto de lei invoca «Y acidentes com trotinetes», o número veio de algum lado — e esse «lado» determina o que o número mede e o que deixa de fora. Esta página mapeia quem produz os dados de segurança rodoviária em Portugal e explica as definições que mais confusão geram no debate público.
Quem produz o quê
| Fonte | O que regista | O que fica de fora |
|---|---|---|
| PSP e GNR (registo policial) | Acidentes com vítimas comunicados à polícia — o boletim estatístico de acidente é a matéria-prima das estatísticas oficiais | Acidentes sem chamada à polícia: quedas sozinho, atropelamentos sem registo, sinistros resolvidos no local |
| ANSR | Compila e publica os relatórios oficiais de sinistralidade; gere o sistema de informação (atribuição legal no art. 2.º do Decreto Regulamentar 28/2012) | Depende do registo policial: mede o que a polícia registou, não a realidade total |
| Hospitais / SNS | Vítimas tratadas em urgências e internamentos — inclui casos que nunca foram registados pela polícia | Dados clínicos, não dados de trânsito: circunstância, local e veículo nem sempre codificados |
| Estatísticas de mortalidade (INE / SNS) | Óbitos por causa externa, incluindo acidentes de viação | Desfasamento temporal e de classificação face aos registos policiais |
| Seguradoras (APS, ASF, Fundo de Garantia Automóvel) | Sinistros com seguro acionado | Veículos não segurados (trotinetes, bicicletas sozinhas) e acordos sem acionamento do seguro |
| Comissão Europeia (base CARE) e IRTAD/OCDE | Mortos a 30 dias, harmonizados entre países — é a base das comparações internacionais | Detalhe local: contexto urbano vs. rural, tipo de modo, circunstâncias |
| OMS (Global Status Report) | Estimativas internacionais, ajustando o sub-registo de alguns países | São estimativas modeladas, não contagens diretas |
| PRP, universidades, LNEC, observatórios | Estudos específicos: taxas de uso observadas (capacete, cinto), comportamento, infraestrutura | Dependem do financiamento e do mandato de quem os encomenda — ver metodologia e financiador antes de citar |
| Municípios | Contagens de tráfego, inquéritos de mobilidade, registos locais | Cobertura territorial limitada e metodologias diferentes entre cidades |
Nenhuma destas fontes mede «a verdade». Cada uma mede uma fatia: o que a polícia viu, o que o hospital tratou, o que o seguro pagou. Os bons usos dos dados começam por saber qual fatia está a ser citada.
As definições que mais confundem
«Morto a 30 dias»
A definição internacional de vítima mortal conta quem morre no local ou até 30 dias depois do acidente, por causas relacionadas com ele. Não é «morto na hora»: uma pessoa internada que morre duas semanas depois entra na mesma estatística. É por isto que os números definitivos de um ano saem sempre com atraso — e que os primeiros balanços são provisórios.
Acidente registado ≠ acidente acontecido
A estatística oficial conta o que a polícia registou. Uma queda de bicicleta sem outro veículo, um atropelamento em que a vítima recusa assistência, um despiste sem testemunhas — podem nunca entrar na série. O fenómeno chama-se sub-registo e não é igual para todos os modos: é geralmente maior para peões, ciclistas e veículos sem seguro — exatamente os grupos cujo risco mais interessa medir.
Vítimas ≠ acidentes
Um acidente pode ter zero, uma ou várias vítimas. Uma campanha que reduz acidentes de danos materiais pode não mudar quase nada nos mortos; uma medida que protege os ocupantes de automóveis pode ser invisível para os peões. O indicador escolhido muda a conclusão.
Números absolutos não são risco
É a distinção metodológica mais importante deste site e a mais ignorada no debate público. Se num ano morrem 100 automobilistas e 30 ciclistas, isso não significa que conduzir é três vezes mais perigoso — porque os automobilistas fazem incomparavelmente mais viagens e quilómetros.
Para comparar riscos é preciso um denominador de exposição:
- por viagem — quantas deslocações cada modo representa;
- por quilómetro — a medida mais usada internacionalmente;
- por hora de deslocação — relevante para modos lentos como peões e bicicletas.
Os três denominadores contam histórias diferentes: a bicicleta pode ser mais arriscada por quilómetro mas menos por viagem, e expõe menos terceiros. Sem denominador, um «aumento de acidentes» pode significar apenas que há mais pessoas a usar aquele modo — é o caso clássico das trotinetes partilhadas, analisado em Os números das trotinetes.
Porque é que isto importa para a legislação: a proposta de capacete e refletor obrigatórios justifica-se essencialmente com números absolutos de acidentes — sem denominador de viagens ou quilómetros. Não é um detalhe técnico: é a diferença entre medir um problema e medir uma fatia visível dele. O documento está em Os argumentos do PSD, argumento a argumento.
Quem estuda — e quem paga o estudo
Para além da estatística oficial, há uma segunda camada: os estudos. Aqui, a pergunta-chave do dossier volta a aplicar-se — quem produz, quem financia e com que mandato:
- ANSR — relatórios oficiais e encomendas de estudos; a escolha do que estudar é uma decisão institucional.
- PRP — produz estudos, observatórios e pareceres próprios, e presta serviços a entidades públicas e privadas; a proveniência do financiamento de cada estudo é informação relevante.
- Universidades e LNEC — investigação financiada por projetos, públicos ou privados; a independência depende do contrato, não do nome da instituição.
- Seguradoras e indústria — publicam estudos sobre os temas que lhes interessam (responsabilidade, fraude, custos); legítimo, mas convém identificar o interesse.
- Associações de utilizadores — mUBi, FPCUB e outras produzem análises com recursos muito menores; a assimetria de capacidade de produzir evidência é ela própria parte do problema de representação.
Um estudo não fica falso por ser financiado por uma seguradora — fica é situado. A pergunta honesta é sempre a mesma: o que foi medido, com que denominador, e a pedido de quem?
O que ainda queremos saber
- A dimensão do sub-registo por modo em Portugal — estimativas publicadas cruzando registo policial e dados hospitalares.
- Que denominadores de exposição existem para Portugal (viagens por modo, quilómetros percorridos) e com que granularidade são publicados.
- A lista de estudos encomendados ou financiados pela ANSR e pela PRP nos últimos anos, com os respetivos financiadores.
Leituras relacionadas
- Quem fala pela segurança rodoviária em Portugal? — o mapa do dossier.
- Dados e estudos.
- Os números das trotinetes — a exposição aplicada a um caso concreto.
- Capacete obrigatório: quem não está na sala.
Referências
- Decreto Regulamentar n.º 28/2012 — atribuições da ANSR, incluindo os sistemas de informação (art. 2.º).
- ANSR — relatórios anuais de sinistralidade — consultado em outubro de 2026.
- Comissão Europeia — Road Safety e a base CARE: definição de morto a 30 dias e dados comparáveis entre Estados-membros.
- ITF/OCDE — IRTAD: comparações internacionais e denominações de risco por exposição.
- OMS — Global Status Report on Road Safety.
Critério documental: distinguimos factos demonstrados pelas fontes, inferências que resultam desses factos e informação que ainda não foi possível confirmar. A ausência de prova pública é apresentada como uma questão em aberto, não como prova de inexistência.