Duas vias para três, ciclovia de 1,40 m e 295 tílias: o que está em causa
Pontos-chave
- O projeto da Câmara é um estudo prévio apresentado a 26 de novembro de 2024 (cerca de 20,3 milhões de euros de obra, mais 1,2 milhões de projeto), com obra prevista para 2027–2028 no primeiro troço.
- Está contestado pelo movimento «Almirante Reis para Pessoas» (lançado a 8 de outubro de 2026) e pela mUBi, que apoia a campanha desde 13 de outubro e publicou um parecer técnico em maio de 2025.
- As duas fontes coincidem no essencial: passar de duas para três vias entre o Martim Moniz e a Alameda (+50% de capacidade rodoviária), uma ciclovia de 1,40 m no troço do Martim Moniz, e o fim do separador central com 295 tílias.
- Segurança: a avenida tinha 160 peões atropelados entre 2010 e 2016 (ANSR, citados no relatório técnico da própria Câmara), antes da ciclovia provisória de junho de 2020. Não localizámos a série depois.
- Não consultámos o estudo prévio: os números vêm dos documentos das organizações e das declarações da Câmara. As próprias organizações usam valores de referência diferentes (§3).
- Não localizámos resposta da Câmara às críticas de outubro de 2026.
Este artigo regista o que é proposto, o que é contestado e o que se pode verificar. Não decidimos quem tem razão: separamos alegações (de quem contesta e de quem propõe) de dados, e dizemos como cada ponto se verifica. Para o enquadramento dos dados de segurança desta avenida, ver também Antes de proibir.
1. Como chegámos aqui
| Data | Acontecimento | Fonte |
|---|---|---|
| Junho de 2020 | Ciclovia provisória («pop-up») na avenida | Movimento «Almirante Reis para Pessoas» |
| 2023 | Processo participativo da Câmara: cerca de 2.500 participantes e mais de 2.200 respostas a um inquérito. Pedidos mais frequentes: mais arvoredo, manter e melhorar a ciclovia, alargar passeios, reduzir o trânsito de atravessamento (relatório de maio de 2024) | Movimento; mUBi |
| Maio de 2024 | Auditoria da Copenhagenize à rede ciclável: a avenida está entre as três vias com mais problemas de segurança. O vice-presidente da Câmara anuncia alterações «muito significativas» | Observador |
| 26 de novembro de 2024 | A Câmara apresenta o estudo prévio: cerca de 20,3 milhões de euros de obra (12,6 no primeiro troço e 7,6 no segundo) e 1,2 milhões de projeto | Movimento |
| 12 de maio de 2025 | Parecer técnico da mUBi, com alternativa | mUBi |
| Julho de 2025 | A Câmara aprova a despesa de 639,6 mil euros para o projeto do primeiro troço | Observador (citado pelo movimento) |
| 4 de outubro de 2025 | Sete organizações (mUBi, ZERO, Caracol POP, Moradores de Arroios, Estrada Viva, APSI e ACA-M) pedem a reformulação do projeto | Movimento; mUBi |
| 8 de outubro de 2026 | Lançamento do movimento «Almirante Reis para Pessoas» e de uma petição dirigida à Assembleia Municipal | Lisboa para Pessoas |
| 13 de outubro de 2026 | A mUBi apoia a campanha | mUBi |
| 17 de outubro de 2026 | Assembleia popular no Jardim do Caracol da Penha (15h). Não localizámos relato do que foi decidido | Movimento |
2. O que se contesta
Os pontos abaixo vêm do movimento e do parecer da mUBi. Não consultámos o estudo prévio, por isso cada um é uma alegação a verificar na secção-tipo e no Manual de Espaço Público de Lisboa.
| Ponto | O que se alega | Quem | Como se verifica |
|---|---|---|---|
| Faixas de rodagem | De duas para três vias entre o Martim Moniz e a Alameda: +50% de capacidade rodoviária. A faixa passa de 8,80 m para 9,50 m, ganha à custa da ciclovia e do estacionamento. Entre a Alameda e o Areeiro mantêm-se quatro vias (a mUBi propõe três) | mUBi; movimento | Secção-tipo do estudo prévio e estudo de tráfego da Câmara |
| Ciclovia | Martim Moniz – Praça do Chile: 1,40 m por sentido, sem o canal de proteção de 0,80 m, abaixo dos valores do Manual de Espaço Público e do RMUEL. Alameda – Areeiro: 2,10 m (bidirecional). Percurso em ziguezague sobre o passeio e junto à Alameda a ciclovia «desaparece» | mUBi; movimento | Larguras do estudo prévio contra o Manual e o regulamento (os valores de referência diferem, §3) |
| Passeios e travessias | Passeios quase sem alteração (+5 cm num lado, +70 cm no outro, onde ficam as esplanadas). A faixa mais larga «mais do que duplica» a largura a atravessar; paragens flutuantes aumentam os conflitos entre ciclistas e peões | mUBi; movimento | Largura de travessia por passadeira, antes e depois |
| Autocarros | Corredor BUS só num sentido entre o Martim Moniz e a Praça do Chile («sem lógica»); dois corredores, um por sentido, entre a Praça do Chile e o Areeiro | mUBi; movimento | Desenho do corredor e dados de passageiros |
| Praça do Chile | Rotunda de três vias deixa o ciclista num ponto cego do condutor; a mUBi cita Brilon (2005) para dizer que este desenho é proibido na Alemanha | mUBi | Desenho da rotunda; a afirmação sobre a Alemanha não a verificámos |
| Árvores | Desaparece o separador central com 295 tílias; o transplante seria incerto (cita-se o caso dos jacarandás da Avenida 5 de Outubro) e as árvores novas demorariam mais de uma década a dar sombra | Movimento; mUBi | Plano de transplante e taxa de sobrevivência em casos anteriores |
| Velocidade | Sem separador e com faixa mais larga, os carros tenderiam a velocidades maiores. A mUBi diz que a ciclovia provisória tinha reduzido velocidades e colisões | mUBi | Velocidades medidas antes e depois da ciclovia provisória (não as localizámos) |
| Processo participativo | O projeto «contraria os resultados» do processo, em que a maioria pediu menos tráfego automóvel e mais prioridade a peões, bicicletas e transporte público | Movimento; mUBi | Relatório da participação (maio de 2024) contra o estudo prévio |
3. O que diz a Câmara e o que não bate certo
- Árvores: o eixo teria cerca de 370 árvores (+25% do que hoje existe). As tílias seriam transplantadas: 65 para um «Parque das Tílias» na Alameda, 20 para a envolvente, 30 para outras zonas e até 180 de regresso à avenida. O movimento propõe somar as novas às existentes, para perto de 700.
- Estacionamento: os 170 lugares que restam seriam transferidos para parques e ruas da envolvente, onde seriam criados outros 105.
- Resposta à participação: a então vereadora do Urbanismo, Joana Almeida, defendeu que a proposta responde à participação pública e ao volume de tráfego. Não localizámos resposta às críticas de outubro de 2026.
- Calendário: concurso no terceiro trimestre de 2026, obra de 2027 a 2028 e segundo troço em 2029. Segundo o movimento, nenhum concurso foi lançado.
Valores que as fontes não reconciliam (verificar antes de os repetir):
- Referência para a ciclovia bidirecional Alameda – Areeiro: o movimento fala em 2,20 m (regulamento municipal); a mUBi, em 2,60 m (recomendado). Os dois comparam com 2,10 m do projeto, mas com documentos diferentes.
- Contagens de bicicletas: o parecer da mUBi usa 1.712 ciclistas (o texto que li indica hora de ponta), e o movimento, 1.668 passagens por dia em setembro. As unidades parecem diferentes: confirmar nos relatórios de contagem.
- Custo: 20,3 milhões de obra mais 1,2 milhões de projeto somam 21,5 milhões, que é o que a mUBi cita; o movimento arredonda para 21.
4. O que dizem os dados de segurança
- Antes: 160 peões atropelados entre 2010 e 2016, o maior número do país, segundo dados da ANSR (via Observatório do ACP, 2019) que o relatório técnico da própria Câmara cita, antes da ciclovia provisória de junho de 2020. A mUBi usa os mesmos dados e não critica os números da Câmara.
- Depois: a auditoria de 2024 colocou a avenida entre as três com mais problemas de segurança para quem pedala. O vice-presidente da Câmara disse que «todos os dados de acidentes e de sinistralidade» o comprovam, sem os mostrar.
- Falta: a série de atropelamentos, feridos e mortos por troço depois de 2016 e depois da ciclovia, as velocidades medidas e as contagens atuais. Sem ela, não se pode dizer se a ciclovia reduziu feridos e mortos, nem prever o que fará um desenho com mais uma via (o que as contagens não mostram).
- Princípio geral: a gravidade de um atropelamento depende sobretudo da velocidade de impacto, e a largura da travessia aumenta a exposição do peão ao tráfego (a velocidade mata, sistema seguro). É por isso que a secção-tipo e a velocidade projetada são o centro da discussão, e não só a ciclovia.
5. O que acompanhar e o que pedir
- Petição: com 150 assinaturas validadas, o tema tem de ser agendado na Assembleia Municipal, que ouve os promotores (segundo o movimento).
- Concurso da obra: previsto para o terceiro trimestre de 2026; não localizámos a sua abertura.
- Pedidos que decorrem das lacunas acima: a secção-tipo do estudo prévio comparada com o Manual de Espaço Público e o RMUEL; o relatório da participação e a justificação de onde o projeto se afasta dele; a série de sinistralidade por troço desde 2010; as velocidades medidas antes e depois da ciclovia provisória; as contagens de bicicletas e de peões; o plano e as taxas de sobrevivência dos transplantes.
A pergunta de fundo: a avenida precisa de menos risco para peões e ciclistas, e ninguém contesta o diagnóstico de que não pode ficar como está. A discussão é se o desenho proposto o consegue, e isso decide-se com secções-tipo, velocidades e sinistralidade por troço, não com adjetivos. O mesmo critério que aplicamos às trotinetes: decisões sobre o espaço público precisam de dados que se possam verificar.
Leituras relacionadas
- Antes de proibir: o caso Almirante Reis — os dados de segurança e o que falta medir.
- O que se pode modificar numa rua — e a Rua de Costa Cabral.
- A velocidade mata e Sistema seguro.
- Ciclovias obrigatórias e As ciclovias não servem para nada?
Referências
- Lisboa para Pessoas, 8 de outubro de 2026, «Iniciativa cidadã reabre a discussão sobre a Almirante Reis e pede à Câmara que reveja o projecto» — críticas do movimento, posições conhecidas da Câmara, datas. Consultado em 18 de outubro de 2026.
- mUBi, 13 de outubro de 2026 — apoio à campanha.
- mUBi, 12 de maio de 2025, parecer sobre o projeto — críticas técnicas e alternativa (lido em resumo de página).
- Observador, 23 de maio de 2024 — auditoria da Copenhagenize e declarações do vice-presidente da Câmara.
- Os valores do Manual de Espaço Público, do RMUEL e do estudo prévio da Câmara não foram consultados diretamente.
Critério documental: distinguimos factos demonstrados pelas fontes, cálculos reproduzíveis, inferências marcadas como tais e informação que não foi possível confirmar. Este artigo regista alegações de organizações e declarações da Câmara tal como constam dos documentos consultados; não consultámos o estudo prévio nem o Manual de Espaço Público, e por isso não confirmamos nem desmentimos cada medida. «Não localizámos» não equivale a «não existe». Fontes consultadas em 18 de outubro de 2026.
