A escada certa de comparação
Pontos-chave
- A comparação útil não é «trotinete vs. carro» — é a escada dos leves: bicicleta → e-bike → trotinete legal → ciclomotor → mota → trotinete ilegal de alta velocidade.
- Na escada, os saltos reais são dois: a passagem para o ciclomotor (45 km/h, matrícula, seguro, carta, capacete) e o salto para a trotinete ilegal — que a 50 km/h já transporta energia de ciclomotor e a 100 km/h transporta quatro vezes mais, no território do motociclo, sem nenhum dos dois regimes.
- A trotinete legal de 25 km/h senta-se na escada ao lado da bicicleta e da e-bike, não ao lado da mota.
- Comparar «trotinetes» com bicicletas sem separar os ilegais mede duas populações diferentes — como acontece com a idade e com a métrica.
Massa, velocidade e energia — a tabela honesta
Aplicando E = ½mv² com massa total (veículo + ocupante ~75 kg) e velocidade típica de uso, a escada ordena-se assim:
| Veículo | Massa total | Velocidade exemplo | E = ½mv² calculada | vs. peão | Enquadramento |
|---|---|---|---|---|---|
| Peão | 75 kg | 5 km/h (1,4 m/s) | ~0,07 kJ | referência | — |
| Bicicleta | 95 kg (15 + 80) | 20 km/h (5,6 m/s) | ~1,5 kJ | ~20× | Velocípede |
| Trotinete legal | 95 kg (20 + 75) | 25 km/h (6,9 m/s) | ~2,3 kJ | ~32× | Equiparada a velocípede (art. 112.º) |
| E-bike | 100 kg (25 + 75) | 25 km/h (6,9 m/s) | ~2,4 kJ | ~34× | Velocípede com motor auxiliar |
| Ciclomotor | 155 kg (80 + 75) | 45 km/h (12,5 m/s) | ~12,1 kJ | ~170× | Matrícula, seguro, carta, capacete obrigatório |
| Trotinete ilegal a 50 km/h | 120 kg (45 + 75) | 50 km/h (13,9 m/s) | ~11,6 kJ | ~160× | Nenhum — ilegal na via pública |
| Trotinete ilegal a 100 km/h | 120 kg (45 + 75) | 100 km/h (27,8 m/s) | ~46,3 kJ | ~640× | |
| Motociclo | 275 kg (200 + 75) | 90 km/h (25 m/s) | ~85,9 kJ | ~1 200× | Regime completo de veículo motorizado |
Porque é que a mesma trotinete aparece duas vezes: como a energia cresce com v², uma trotinete ilegal a 50 km/h transporta ~11,6 kJ — energia de ciclomotor — e a 100 km/h transporta ~46,3 kJ, quatro vezes mais com apenas o dobro da velocidade. «Trotinete ilegal» não é um cenário energético único: a 50 km/h é vizinha do ciclomotor; a 100 km/h entra no território do motociclo.
Todos os valores são ilustrativos: dependem das massas e velocidades assumidas, que estão visíveis na tabela. O que sobrevive a qualquer escolha razoável de pressupostos é a ordenação: a trotinete legal é vizinha da bicicleta; a ilegal não continua a escada dos velocípedes — salta para o patamar dos motociclos, transportando energia comparável à de uma mota sem nenhum dos requisitos que a lei impõe a uma mota.
Os dois saltos que a lei já reconhece (e o que falta)
- Salto 1 — para ciclomotor: quando um veículo de duas rodas passa dos ~25 km/h para 45 km/h, a lei portuguesa exige matrícula, seguro, carta de condução e capacete. É o reconhecimento legal de que a energia mudou de patamar.
- Salto 2 — o que a lei não capturou: a trotinete de alta velocidade entra fisicamente no território do ciclomotor e do motociclo (80–140 km/h, potências de vários kW) sem entrar em nenhum regime. Não é «uma trotinete que anda depressa» — é um veículo motorizado não homologado.
A assimetria regulatória: um ciclomotor de 45 km/h precisa de matrícula, seguro e capacete; uma trotinete anunciada a 100 km/h não precisa de nada para ser vendida — apenas não pode ser usada na via pública. A fiscalização da venda e da circulação destes modelos é o ponto fraco documentado em O alvo fácil.
Risco próprio vs. risco imposto, na escada
Cruzando com a matriz vítima × veículo e a física:
- Bicicleta, e-bike, trotinete legal: energia insuficiente para matar terceiros com frequência — a vítima mortal é quase sempre quem está em cima. O problema é o risco próprio: quedas, rodas pequenas, colisões com veículos pesados.
- Ciclomotor e mota: energia suficiente para matar terceiros — e o risco próprio mais alto da escada legal, como as estatísticas de motociclistas mostram.
- Trotinete ilegal: energia de moto com pneus de 10 polegadas — risco próprio extremo e risco imposto real a peões, ao contrário das legais.
É por isso que a pergunta «as trotinetes são perigosas?» não tem resposta única: a trotinete legal é vizinha da bicicleta na escada; a ilegal é vizinha da mota. Tratá-las juntas é o erro de classificação de três veículos tratados como um.
O que ainda queremos saber
- Velocidades efetivas de circulação por tipo de veículo em Portugal — as velocidades típicas usadas são referências, não contagens.
- O peso real das trotinetes ilegais no tráfego urbano português — visível nas lojas, invisível nas estatísticas.
- Se a europa regula já estas máquinas como ciclomotores — comparação de enquadramentos por país.
Leituras relacionadas
Três veículos tratados como um
O risco que transportamos — a física da escada.
Quem causa dano a quem?- O alvo fácil — os modelos ilegais à venda.
O que Portugal quer mudar — a matriz problema → medida.
Referências
- Código da Estrada, art. 112.º — trotinetes ≤25 km/h equiparadas a velocípedes; regime dos ciclomotores (matrícula, seguro, capacete) aplicável acima dos parâmetros de velocípede.
- Catálogo de retalho auditado em O alvo fácil: modelos anunciados a 80–140 km/h, 10.000 W, ~1.460–18.600 €.
- Ordens de energia: cálculo ilustrativo ½mv² com massa veículo+ocupante.
Critério documental: distinguimos factos demonstrados pelas fontes, inferências que resultam desses factos e informação que ainda não foi possível confirmar. A ausência de prova pública é apresentada como uma questão em aberto, não como prova de inexistência.