Dados e Estudos
Compilação de estudos científicos, relatórios institucionais e dados estatísticos que fundamentam os artigos deste site. Cada entrada indica a fonte, o ano e o artigo onde é aprofundada.
- Estudos sobre velocidade e mortalidade rodoviária
- Investigação sobre eficácia e risco compensatório do capacete
- Dados sobre infraestrutura e segurança no ciclismo
- Evidências sobre saúde pública e mobilidade ativa
- Contexto europeu e internacional
Velocidade e Mortalidade
A relação entre velocidade de impacto e probabilidade de morte é não-linear: pequenas reduções de velocidade têm efeitos desproporcionados na sobrevivência. É o fundamento central do Sistema Seguro.
OMS / Organização Mundial de Saúde (2017)
Save LIVES: A road safety technical package
A 50 km/h, a probabilidade de morte de um peão atropelado é de 85%. A 30 km/h, cai para 10%. A redução de apenas 20 km/h nas áreas urbanas pode evitar a maioria das mortes pedonais.
→ Aprofundado em: A velocidade mata | Como chegar a 0 mortes | Fonte original: WHO Save LIVES (2017)
ETSC — European Transport Safety Council (2023)
Road Safety Performance Index (PIN) Annual Report
Os países europeus com zonas 30 generalizadas nos centros urbanos registam consistentemente menos mortes pedonais. A Holanda e a Dinamarca lideram com menos de 3 mortes por milhão de habitantes em vias urbanas.
→ Aprofundado em: Sistema Seguro | Como chegar a 0 mortes | Fonte original: ETSC PIN Programme
Nilsson, G. (2004) — Swedish National Road and Transport Research Institute (VTI)
Traffic Safety Dimensions and the Power Model to Describe the Effect of Speed on Safety
O Power Model demonstra que o risco de acidente mortal varia com a quarta potência da velocidade: duplicar a velocidade multiplica o risco de morte por 16. Uma redução de 10% na velocidade média reduz os acidentes mortais em cerca de 34%.
→ Aprofundado em: A velocidade mata | Fonte original: Power Model (Nilsson/Elvik)
Duplicar a velocidade multiplica o risco de acidente mortal por 16. (Nilsson, 2004)
Capacete: Eficácia e Risco Compensatório
Os estudos sobre capacete dividem-se em dois grupos: os que analisam a proteção física em caso de acidente, e os que analisam o efeito do uso do capacete no comportamento de condutores e ciclistas. Os resultados são mais complexos do que o senso comum sugere.
Walker, I. (2007) — Universidade de Bath
Drivers overtaking bicyclists: Objective data on the effects of riding position, helmet use, vehicle type and apparent gender. Accident Analysis & Prevention
Estudo de campo com sensor de distância: quando o ciclista usava capacete, os condutores passavam em média 8,5 cm mais perto do que sem capacete. O efeito de risco compensatório foi estatisticamente significativo (p < 0,001).
→ Aprofundado em: O uso do capacete | Como ultrapassar um ciclista | Fonte original: DOI: 10.1016/j.aap.2006.08.010
Jacobsen, P.L. (2003) — California Department of Health Services
Safety in numbers: more walkers and bicyclists, safer walking and bicycling. Injury Prevention
Análise de dados de múltiplos países e cidades demonstra que quanto mais ciclistas existem numa via, menor é o risco por ciclista. O efeito "segurança em números" supera em impacto qualquer intervenção individual de equipamento.
→ Aprofundado em: O uso do capacete | Capacete obrigatório | Fonte original: DOI: 10.1136/ip.9.3.205
Sieg, G. (2016) — Universidade de Münster / Springer
Risiko und Radfahren: Eine theoretische und empirische Analyse
Estudo económico-comportamental que quantifica o efeito de risco compensatório associado ao uso do capacete: condutores de automóveis passam mais perto de ciclistas com capacete do que sem capacete, aumentando o risco de acidente por ultrapassagem perigosa.
→ Aprofundado em: O uso do capacete | Fonte original: Springer (Sieg, 2016)
O capacete obrigatório reduz mortes porque protege a cabeça em acidentes.
Países com capacete obrigatório registam redução do uso da bicicleta sem redução proporcional de mortes. A segurança em números e a qualidade da infraestrutura são preditores mais fortes.
Infraestrutura e Segurança
Cycling UK / CTC (2018)
The safety of cycling: an analysis of risk and how to reduce it
A causa principal dos acidentes graves com ciclistas no Reino Unido não é a ausência de infraestrutura ciclista mas sim a velocidade e o comportamento dos condutores de automóveis. 75% das mortes envolvem vias com limite de 40 mph ou mais.
→ Aprofundado em: Ciclovias obrigatórias | A velocidade mata | Fonte original: Cycling UK
ANSR — Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (2022)
Relatório Anual de Sinistralidade
Em Portugal, 90% dos acidentes graves com ciclistas ocorrem em entroncamentos e interações com outros veículos. A grande maioria envolve vias sem infraestrutura ciclista segregada e velocidades superiores a 50 km/h.
→ Aprofundado em: Qual a melhor posição para circular | Fonte original: ANSR — Relatórios
Elvik, R. (2009) — Institute of Transport Economics, Oslo
The non-linearity of risk and the promotion of environmentally sustainable transport. Accident Analysis & Prevention
A construção de ciclovias segregadas é mais eficaz em vias com velocidades elevadas. Em vias de 30 km/h partilhadas, a ciclovias são frequentemente desnecessárias e podem até aumentar o risco em cruzamentos por redução da visibilidade.
→ Aprofundado em: Ciclovias obrigatórias | Fonte original: Accident Analysis & Prevention (Elvik, 2009)
U-Shift/IST — contagens de bicicletas em Lisboa
Bicycle and Cyclists Counts in Lisbon
Projeto de contagens anuais em cerca de 60 locais de Lisboa, realizado em colaboração com a Câmara Municipal desde 2016. As observações registam fluxos, características dos utilizadores e comportamentos, permitindo analisar por onde as pessoas realmente circulam.
→ Aprofundado em: Ciclistas no passeio | Fonte original: U-Shift/IST
U-Shift/IST — Avenida da Liberdade
As obras nas laterais e a “oportunidade perdida” para uma ciclovia
Numa campanha de contagens citada pelo U-Shift, no sentido descendente, cerca de 65% dos ciclistas utilizavam a faixa central, 35% circulavam pelos passeios centrais e apenas 5% utilizavam as laterais. Os investigadores associam a rejeição das laterais à insegurança sentida perante a diferença de velocidades dos automóveis.
→ Aprofundado em: Ciclistas no passeio | Fonte original: U-Shift — Avenida da Liberdade
Estudo de Copenhaga (2023)
A joint bicycle route choice model for various cycling frequencies and trip distances based on a large crowdsourced GPS dataset
Análise de 134 169 viagens de 6 523 ciclistas através de GPS. A interação com o tráfego motorizado dissuade especialmente os ciclistas menos frequentes, enquanto troços longos e contínuos de infraestrutura fisicamente protegida tornam a bicicleta mais atrativa.
→ Aprofundado em: Ciclistas no passeio | Fonte original: Transportation Research Part A
Broach, Dill & Gliebe (2012) — Portland
Where do cyclists ride? A route choice model developed with revealed preference GPS data
Com base em 1 449 viagens utilitárias reais de 164 ciclistas, o estudo encontrou preferência por caminhos separados e ruas com acalmia de tráfego, mas também custos associados a desvios, mudanças de direção, cruzamentos, tráfego e distância adicional.
→ Aprofundado em: Ciclistas no passeio | Fonte original: ScienceDirect
Modeling cyclists' facility choice (2018)
Modeling cyclists' facility choice and its application in bike lane usage forecasting
Mostra que a existência de uma ciclovia não garante a sua utilização. Características da infraestrutura e do ambiente envolvente, como paragens de autocarro, largura disponível e veículos estacionados, influenciam a escolha entre a ciclovia, a faixa de rodagem e outros espaços.
→ Aprofundado em: Ciclistas no passeio | Fonte original: ScienceDirect
Estudo de Melbourne (2025)
Cycling route choice preferences: A taste heterogeneity and exogenous segmentation analysis
Identifica uma preferência forte por pistas protegidas e caminhos separados, sobretudo entre pessoas mais avessas ao risco, mas também diferenças entre perfis de ciclistas. O estudo mostra que a proteção pode compensar parte do custo do percurso, enquanto mudanças de direção adicionais são percebidas como um custo relevante.
→ Aprofundado em: Ciclistas no passeio | Fonte original: ScienceDirect
Revisão sistemática sobre escolha observada de rotas
Revealed Preference Methods for Studying Bicycle Route Choice
Revisão de 112 estudos que utilizaram GPS, contagens ou observação para analisar o comportamento real dos ciclistas. A literatura identifica efeitos da distância, diretividade, características da infraestrutura e segurança percebida.
→ Aprofundado em: Ciclistas no passeio | Fonte original: PubMed Central
Saúde Pública e Mobilidade Ativa
Oja, P. et al. (2011) — UKK Institute, Finlândia
Health benefits of cycling: a systematic review. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports
Revisão sistemática de 16 estudos: ciclar regularmente está associado a melhor condição cardiorrespiratória, menor mortalidade por todas as causas, menor mortalidade por cancro e menor incidência de cancro.
→ Aprofundado em: Benefícios da bicicleta para a saúde | Fonte original: DOI: 10.1111/j.1600-0838.2011.01299.x
Andersen, L.B. et al. (2000) — University of Copenhagen
All-cause mortality associated with physical activity during leisure time, work, sports, and cycling to work. Archives of Internal Medicine
Estudo longitudinal com 30.000 participantes: as pessoas que usam a bicicleta para ir trabalhar têm uma redução de 28% na mortalidade por todas as causas, mesmo após controlo para outros fatores de estilo de vida.
→ Aprofundado em: Benefícios da bicicleta para a saúde | Fonte original: DOI: 10.1001/archinte.160.11.1621
Celis-Morales, C.A. et al. (2017) — British Medical Journal
Association between active commuting and incident cardiovascular disease, cancer, and mortality
Estudo com mais de 260.000 participantes no Reino Unido: as deslocações diárias em bicicleta associam-se a menor risco de doença cardiovascular, menor risco de cancro e menor mortalidade global.
→ Aprofundado em: Benefícios da bicicleta para a saúde | Fonte original: BMJ (2017)
Estudo 2024 sobre commuting e saúde mental
Does cycle commuting reduce the risk of mental ill-health?
Mostra evidência de que quem utiliza a bicicleta nas deslocações tem menor probabilidade de desenvolver problemas de saúde mental e menor utilização de medicamentos associados a esses problemas.
→ Aprofundado em: Ciclismo reduz ansiedade e depressão | Fonte original: OUP Academic
Friel, C. et al. (2024) — BMJ Public Health
Health benefits of pedestrian and cyclist commuting
Estudo recente que mostra benefícios físicos e mentais mais fortes entre utilizadores de modos ativos de transporte, incluindo indicadores de saúde mental superiores aos de não utilizadores.
→ Aprofundado em: Benefícios da bicicleta para a saúde | Fonte original: PubMed 40018109
Public Health England (2018)
Cycling and walking for individual and population health benefits
Relatório do governo britânico que destaca redução da obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e mortalidade, além de poupanças para os sistemas de saúde e benefícios económicos do investimento em infraestruturas cicláveis.
→ Aprofundado em: Benefícios da bicicleta para a saúde | Fonte original: GOV.UK
Por cada ano de vida perdido em acidentes de bicicleta, ganham-se 20 por via dos benefícios para a saúde. (BMA, 2012)
Contexto Internacional
ECF — European Cyclists Federation (2021)
Cycling barometer and safety statistics EU27
A Holanda tem a maior taxa de uso de bicicleta da Europa (27% de todas as deslocações) e uma das mais baixas taxas de mortalidade por ciclista. Este resultado não se deve ao capacete (taxa de uso < 1%) mas à infraestrutura, às velocidades urbanas reduzidas e à cultura de responsabilidade do condutor.
→ Aprofundado em: Portugal não é a Holanda | Fonte original: European Cyclists' Federation
People for Bikes / Bloomberg Philanthropies (2023)
City Ratings: Infrastructure and Safety Index
As cidades com melhor pontuação de segurança para ciclistas partilham três fatores: rede ciclista contínua, limites de 30 km/h nos centros urbanos, e prioridade legal ao utente mais vulnerável em caso de acidente.
→ Aprofundado em: Sistema Seguro | Fonte original: PeopleForBikes
Nota metodológica
Os estudos listados nesta página foram seleccionados por relevância directa para o contexto português e europeu, e por qualidade metodológica (publicados em revistas peer-reviewed ou por instituições de referência). Quando um estudo é citado num artigo, esta página facilita a verificação através das ligações às fontes originais.
Para distinguir dados policiais, hospitalares, administrativos e de seguradoras, veja De onde vêm os números da segurança rodoviária?. Esta página reúne estudos e remete para as fontes originais; a compilação não é, por si só, uma fonte primária.