Seguro obrigatório
Pontos-chave
- A energia cinética depende da massa total e da velocidade; não é uma taxa de risco.
- O preço de um seguro exige dados de frequência e custo dos sinistros; não se calcula dividindo a energia de um carro pela de uma bicicleta.
- Os sinistros automóveis custam 11.000M€/ano; os seguros cobrem apenas 1/8.
Mito
Os ciclistas deviam ter seguro obrigatório como os carros.
Realidade
Uma bicicleta e um automóvel transportam energias diferentes conforme a massa e a velocidade. Essa diferença não demonstra uma taxa de risco 50 vezes menor nem determina o preço de um seguro.
Qual o nível de danos causados por um ciclista?
Os danos dependem da massa total do conjunto bicicleta e pessoa, da velocidade, da forma da colisão e da vulnerabilidade de quem é atingido. A pequena massa da bicicleta, isoladamente, não torna os danos equivalentes aos de uma pessoa a correr.
Uma comparação com uma pessoa a correr também exige declarar a massa e a velocidade de ambos; o modo de deslocação, por si só, não fixa a energia nem o dano.
O ciclista quando alcança velocidades superiores tem todo o interesse em não chocar dado que também se pode magoar.
E quantos acidentes houve com giras?
Em 2018 apontava-se que num mês havia perto de 150 000 viagens de gira e havia cerca de 3 feridos por mês. Se calcular o custo de cada ferido em 500 euros tem-se que cada viagem tem um custo médio de acidentes de 0,01 €.
Alguém que ande 200x por ano terá um custo médio de 2 €.
Esta conta usa um custo hipotético de 500 euros por ferido: é uma ilustração aritmética, não uma estimativa de indemnizações ou de prémio de responsabilidade civil. Não distingue danos próprios de danos causados a terceiros.
Em 2022 o número de viagens diário já é quase o dobro.
Qual a diferença na quantidade de energia?
A quantidade de energia causada pelo movimento é proporcional ao quadrado da velocidade e à massa.
Os pressupostos e as diferenças entre energia, dano e taxa de risco estão em O risco que transportamos connosco.
Num cenário ilustrativo, uma bicicleta e pessoa com massa total de 95 kg a 20 km/h têm cerca de 1,47 kJ; um automóvel e ocupantes com massa total de 1.500 kg a 50 km/h têm cerca de 144,68 kJ. Pela fórmula E = ½mv², a razão é aproximadamente 99 vezes. São pressupostos de cálculo, não médias observadas nem uma razão entre taxas de sinistros.
Qual a diferença na quantidade de movimento?
A quantidade de movimento é p = mv. Num sistema sem impulso externo relevante, conserva-se na colisão; a energia cinética pode transformar-se em deformação, calor e outras formas de energia.
Se um automóvel e ocupantes de 1.500 kg a 50 km/h atingirem uma pessoa de 75 kg inicialmente parada e ambos passarem a mover-se juntos, o modelo idealizado dá cerca de 47,6 km/h: v = (1.500 × 50) / (1.500 + 75).
No mesmo modelo, uma bicicleta e pessoa de 95 kg a 30 km/h, ao atingir uma pessoa de 75 kg parada, dão cerca de 16,8 km/h: v = (95 × 30) / (95 + 75). Estas hipóteses simplificam colisões reais e não permitem prever lesões individuais.
As forças e lesões dependem também da duração do contacto, da geometria do embate e da vulnerabilidade da pessoa. Massa, velocidade e energia ajudam a compreender o potencial de dano, mas não bastam para calcular a frequência dos sinistros.
Isto explica porque choques com camiões mesmo a baixa velocidade costumam ter efeitos devastadores.
Qual seria o valor do seguro necessário para cobrir o risco de um ciclista?
Não se pode deduzir um prémio de seguro dividindo o preço de um seguro automóvel por uma razão de energias. Seriam necessários dados sobre frequência dos sinistros, indemnizações, cobertura, exposição e custos administrativos. Não apresentamos aqui uma estimativa atuarial para uma bicicleta.
A discussão sobre indemnizações, propostas e o enquadramento de veículos motorizados está em Capacete obrigatório: quem lucra, as seguradoras. É necessário distinguir bicicletas convencionais, bicicletas elétricas e outros veículos; a comparação física não determina o regime legal de cada categoria.
Como se faz sem seguro?
No caso de pessoas a pessoa é responsabilizada a título individual pela reposição dos estragos sendo a mesma situação para os ciclistas.
Tem mais implicações ser obrigatório?
O seguro ser obrigatório pode ajudar a diminuir o grau de uso da bicicleta trazendo assim para a sociedade um maior nível de poluição e mais gastos de saúde.
A avaliação dessa medida deve distinguir risco próprio, dano a terceiros e exposição. Não se pode concluir que a bicicleta e a deslocação a pé tenham a mesma taxa de risco apenas pela sua massa.
E carros sem seguro?
Existem cerca de 100 000 carros a circular sem seguro que representam um risco muito maior do que as bicicletas. Em operações STOP chegam a ser apanhados camiões.
No entanto não só este risco é aceite por outros condutores como pagam pelos acidentes causados por estes.
Cada condutor paga em média cerca de 8 euros por ano para o fundo de garantia automóvel que assim reúne cerca de 45 milhões de euros para pagar os acidentes causados por condutores sem seguro.
Cada carro sem seguro provocará assim um prejuízo de cerca de 450 euros por ano. Este valor está acima do preço de alguns seguros pelo que pode haver um número de carros sem seguro ainda maior.
É previsível que o impacto todos os acidentes causados por ciclistas nem chegue a 1% deste valor.
Cerca de metade dos ciclistas são também condutores pelo que só o contributo dos ciclistas que são condutores daria para que o fundo de garantia automóvel pagasse todos os acidentes causados por ciclistas.
E ter seguro basta?
Existem cerca de 400 atropelamentos por ano com fuga mesmo em casos de matarem o peão.
A maior parte desses casos terão seguro pelo que ter seguro não é sinal que se assuma as responsabilidades.
Em acidentes com ciclistas a hipótese de o ciclista não conseguir fugir depois do acidente será maior que de um outro veículo.
Porque falam sempre do seguro obrigatório?
É novamente uma forma de distrair as atenções das alterações que são necessárias fazer por quem provoca mais acidentes e da responsabilidade das entidades públicas de melhorar as infraestruturas e a fiscalização.
Referências
- Ciclistas têm mais regalias?. Fonte: artigo relacionado do projeto. Proporcionalidade entre risco e obrigação.
- Impostos e fiscalidade. Fonte: artigo relacionado do projeto. Custos sociais e externalidades.
- Dados e Estudos. Fonte: compilação de estudos científicos em Dados e Estudos. Fontes para estimativas de risco.
Ferramentas úteis
Faça simulações rápidas para apoiar decisões sobre mobilidade em bicicleta.
