Ilustração baseada numa fotografia da Avenida da República, em Gaia, com a ciclovia e os pilaretes ainda instalados, junto ao metro

Ilustração gerada por IA a partir de uma fotografia fornecida pelo utilizador, mostrando a ciclovia ainda delimitada por pilaretes. Não representa o estado atual da avenida.

Gaia, Avenida da República: duas vias para carros não são mais capacidade

Duas vias para carros não são mais capacidade: o que a remoção da ciclovia de Gaia ignora

O que isto significa para quem anda de bicicleta: na Avenida da República, em Vila Nova de Gaia, a ciclovia de 92,6 mil euros foi retirada para dar lugar a duas vias de automóveis. A medida troca uma infraestrutura que transporta pessoas e abranda o trânsito por mais espaço para carros que, na prática, vira estacionamento em segunda fila. O que se sabe de ruas como esta aponta no sentido contrário ao da decisão.

Em resumo

  • Capacidade: uma faixa de automóveis move 600 a 1.600 pessoas por hora; uma faixa BUS, até 8.000; uma ciclovia bidirecional protegida, cerca de 7.500. Trocar a ciclovia por uma segunda via de carros reduz o que a avenida transporta.
  • Estacionamento: uma segunda via ao longo de comércio e serviços enche-se de veículos parados. Em Gaia, a Lusa contou 11 só num troço, numa manhã. A «segunda via» passa a ser, em parte, uma fila de estacionamento.
  • Bicicleta: ciclovias protegidas aumentam a utilização e atraem quem não pedalaria misturado com carros. Sem elas, a bicicleta fica para quem tem coragem.
  • Velocidade: um sinal de 30 km/h numa avenida com mais uma via não muda o comportamento. O que abranda o trânsito é o desenho da rua.

1. A capacidade mede-se em pessoas, não em carros

Uma avenida existe para deslocar pessoas. Os valores de planeamento do guia de ruas de transporte público da NACTO, para uma faixa de cerca de 3 metros em hora de ponta, são estes:

Uma faixa de 3 mPessoas por hora
Automóveis (1 a 2 pessoas por veículo)600 a 1.600
Autocarros (faixa BUS)até 8.000
Ciclovia bidirecional protegidacerca de 7.500

São valores de planeamento (o da bicicleta assenta num estudo chinês), não medições de Gaia, mas a ordem de grandeza é a mesma em toda a literatura: uma faixa de carros é a forma menos eficiente de usar um metro de rua. Trocar uma ciclovia por uma segunda via para automóveis aumenta o espaço dado ao modo que menos pessoas transporta por metro. Mesmo que a faixa estivesse sempre livre, o ganho seria pequeno; e não está sempre livre (§2). Ver também as ciclovias não servem para nada?

2. Duas vias ao longo do comércio são uma via e uma fila de estacionamento

Onde há lojas, serviços e entregas, a segunda via é ocupada por veículos parados: cargas e descargas, «só um minuto», táxis, quem espera. É previsível e repete-se em qualquer avenida deste tipo, e só a fiscalização permanente o evita. A ciclovia segregada, com pilaretes, impedia-o. Em Gaia, a Lusa contou 11 carros estacionados ilegalmente num único troço e sentido numa manhã, sem polícia à vista, e escreveu que não havia espaço para dois veículos lado a lado em segurança. Quando metade da faixa nova serve de estacionamento, o resultado é uma só faixa útil, com pior segurança, sem ciclovia e sem faixa BUS.

3. Sem ciclovia protegida, pedala quem tem coragem

A avaliação de ciclovias protegidas em cinco cidades dos Estados Unidos (Monsere, Dill e colegas, Portland State University, 2014) encontrou aumentos de utilização da bicicleta entre 21% e 171% nas ruas estudadas, e inquiridos que dizem pedalar mais ou ter trocado de modo. O efeito não é igual em todo o lado, mas a lógica é simples: a maioria das pessoas, incluindo crianças, idosos e quem pedala pouco, não anda de bicicleta no meio de carros, e a segregação é o que as faz considerá-lo. Retirar a ciclovia afasta precisamente essas pessoas, e algumas voltam ao carro, o que acrescenta pressão ao trânsito que a medida pretendia aliviar. A bicicleta perde-se onde mais se ganhava: nas viagens curtas numa avenida de serviços.

4. Um sinal de 30 km/h não abranda uma avenida

Uma faixa de rodagem larga e livre convida a andar depressa, e a ciclovia ajudava a estreitá-la. Limitar a velocidade a 30 km/h numa avenida com mais uma via, sem alterar o desenho, depende do cumprimento voluntário e da fiscalização, e é essa a razão da fraca eficácia dos limites de velocidade sem mais nada. A gravidade de um atropelamento depende da velocidade de impacto (a velocidade mata), e o que reduz a velocidade é o desenho: faixas mais estreitas, ciclovia, passadeiras elevadas, estacionamento organizado.

5. O que fazer

O que a Câmara de Gaia nunca mostrou, e a lei obriga a entregar se existir, é o estudo que fundamentou a remoção. Qualquer pessoa pode pedi-lo, por email, ao abrigo da Lei n.º 26/2016. Modelo:

Ao abrigo da Lei n.º 26/2016, de 22 de agosto, requeiro cópia dos seguintes documentos relativos à Avenida da República: (1) estudo de tráfego ou parecer técnico que fundamentou a remoção da ciclovia; (2) contagens de velocípedes e de tráfego automóvel desde 2024; (3) registos de fiscalização do estacionamento irregular (autos, bloqueamentos, reboques) desde novembro de 2025; (4) medições de velocidade e de tempos de percurso, antes e depois da remoção; (5) estudo que fundamenta o limite de 30 km/h. Se algum destes documentos não existir, requeiro declaração nesse sentido.

Sem resposta no prazo legal, pode queixar-se à Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA). «Não existe estudo» é também uma resposta, e uma notícia. E a quem decide: qualquer medida de trânsito numa avenida como esta deve vir com indicadores (velocidade, tráfego, estacionamento ilegal, contagem de bicicletas, sinistros por troço) e uma avaliação aos seis meses, com os resultados públicos.

A regra: quem remove uma infraestrutura que protege pessoas e as transporta com pouco espaço deve mostrar, antes, o que ganha. Aqui a evidência geral pesa contra a decisão, e o ónus da prova é de quem decide. É o mesmo critério dos casos de Almirante Reis e das trotinetes.

Referências

Critério documental: os valores de capacidade e o efeito das ciclovias vêm da literatura de planeamento, não de medições em Gaia; a ocupação da segunda via por estacionamento é uma expectativa da engenharia de tráfego, ilustrada por uma observação da Lusa (uma manhã, um sentido, um troço). Não consultámos as posturas municipais nem o estudo que fundamentou a remoção, e não localizámos contagens, velocidades ou tempos de viagem da avenida. «Não localizámos» não equivale a «não existe». Fontes consultadas em 20 de outubro de 2026.