Partilhadas vs. particulares: o risco é o mesmo?

Partilhadas e particulares: operador, manutenção e contagem de viagens. Sem dados comparáveis, não podemos comparar o risco por viagem.

Onde os denominadores existem — e onde não existem

Pontos-chave

  • As partilhadas são o único subgrupo com denominador publicado: os operadores contam viagens. Na Europa: ~353 milhões de viagens em 2025 e cerca de 1 lesão por 135–140 mil viagens.
  • Para as particulares não existe denominador nenhum: nem viagens, nem quilómetros, nem parque circulante — em Portugal ou em geral.
  • Nas mortes portuguesas, os números disponíveis apontam para as particulares: ≥6 das 11 mortes e 41% dos feridos graves GNR.
  • Responder «qual é mais perigosa» exige comparar taxas — e só um dos lados tem denominador. A comparação honesta, hoje, é: os dados não permitem concluir, mas a assimetria disponível aponta numa direção.
Partilhadas e particulares: operador, manutenção e contagem de viagens. Sem dados comparáveis, não podemos comparar o risco por viagem.
Contar vítimas não chega: a comparação exige dados de exposição comparáveis. Descarregar WebP

O que a Europa mede nas partilhadas

As trotinetes partilhadas são provavelmente o modo de transporte melhor medido do mundo — porque os operadores registam cada viagem:

  • Volume: ~240 milhões de viagens partilhadas na Europa em 2021, ~312 milhões em 2024 e ~353 milhões em 2025 (Micro-Mobility for Europe — Bolt, Dott, Lime e congéneres);
  • Lesões: cerca de uma lesão por 135.000–140.000 viagens calculado a partir dos dados dos operadores, tendência a descer;
  • Mortalidade: a referência internacional (OCDE/ITF, 2020) estima 78–100 mortes por mil milhões de viagens em trotinetes partilhadas — ordem de grandeza com poucos casos — e conclui que o risco de morrer numa viagem partilhada não é diferente do de uma viagem média de bicicleta;
  • as mortes em trotinete partilhada envolvem habitualmente um automóvel ou veículo pesado interveniente.

Estas são medições de veículos limitados eletronicamente e geridos por operadores — não são generalizáveis ao resto da categoria, e não são medições portuguesas.

O que Portugal mede — e o que não mede

IndicadorPartilhadasParticulares
ViagensEstimativas de imprensa: ~32.000/dia (2023) → 63.000 (2024) → 144.000 (2025), fonte operadoresNão publicado
Acidentes / feridosIncluídos no agregado «trotinetes»; os registos não desagregam publicamente41% dos feridos graves GNR atribuídos a particulares
MortesNo máximo 5 das 11 (por dedução)≥6 das 11
Parque circulanteContável por operador/licença municipalNão existe
Velocidade efetivaLimitada eletronicamente (~20–25 km/h)Sem limite físico — há modelos de 80–140 km/h à venda

A leitura correta da assimetria

A tentação é concluir «as particulares são mais perigosas». A formulação que os dados sustentam é mais precisa e mais útil:

  • as mortes documentadas concentram-se nas particulares — 6+ de 11;
  • o subgrupo das particulares inclui os veículos fora da categoria legal, e ninguém publica quantas das 6+ mortes lhes pertencem;
  • sem denominadores portugueses, não podemos calcular a taxa de nenhum dos dois grupos — mas podemos dizer que qualquer média «trotinetes» é puxada para cima pelas particulares, e que o risco das partilhadas é necessariamente inferior à média publicada;
  • numa medida que afete sobretudo as partilhadas (porque são as identificáveis, as fiscalizáveis, as contratualizáveis), a população atingida e a população que produz a maior parte do dano podem não ser a mesma.

A inferência e os seus limites: «≥6 de 11 em particulares» é facto documentado na imprensa; «os ilegais concentram o risco» é a inferência que se segue — provável, mas não demonstrada caso a caso. A página caso a caso mostra exatamente onde a classificação falta.

O que ainda queremos saber

  • Viagens partilhadas oficiais por cidade — os números atuais vêm dos operadores via imprensa, não de publicação municipal sistemática.
  • Qualquer estimativa do parque de particulares — vendas, importações, inquérito de mobilidade.
  • A classificação veículo a veículo dos acidentes com vítimas — o campo existe nos autos; não está publicado.

Referências

  • Micro-Mobility for Europe — totais anuais de viagens partilhadas (240M em 2021 → 353M em 2025) e taxa de lesões, via dados dos operadores.
  • OCDE/ITF (2020) — Safe Micromobility: 78–100 mortes por mil milhões de viagens partilhadas; risco comparável à bicicleta.
  • Imprensa nacional — viagens partilhadas/dia em Portugal: 32.000 (2023) → 144.000 (2025).
  • Expresso (24 set. 2026) — ≥6 das 11 mortes em particulares; 41% dos feridos graves GNR.

Critério documental: distinguimos factos demonstrados pelas fontes, inferências que resultam desses factos e informação que ainda não foi possível confirmar. A ausência de prova pública é apresentada como uma questão em aberto, não como prova de inexistência.