Heatmap do Strava mostrando Lisboa e arredores com rotas de ciclismo

O Heatmap do Strava e as políticas públicas de mobilidade

O que é o Heatmap do Strava e porque interessa às políticas públicas

Pontos-chave

  • O heatmap do Strava mostra onde as pessoas realmente já pedalam — independentemente de existir ciclovia.
  • Identifica eixos naturais de mobilidade, barreiras reais e pontos de concentração de procura.
  • Subestima a procura potencial: quem não pedala por falta de segurança não aparece no mapa.

O que é o Heatmap

O Strava é uma aplicação usada por ciclistas, corredores e outros desportistas para registar os seus percursos via GPS. Quando milhões de utilizadores registam as suas rotas ao longo do tempo, esses dados acumulam-se e formam um mapa de calor — um heatmap — onde as linhas mais brilhantes representam os trajetos mais percorridos.

A imagem acima mostra Lisboa e arredores. As linhas azuis iluminadas são estradas e caminhos onde as pessoas realmente circulam de bicicleta. Quanto mais intensa a cor, mais vezes aquele troço foi percorrido.

Não é um mapa de infraestrutura — é um mapa de comportamento real.

O que se pode aprender com ele

Onde as pessoas já pedalam — independentemente de existir ou não ciclovia. Se uma rua aparece no heatmap mas não tem infraestrutura, é porque as pessoas a usam na mesma, aceitando o risco.

Onde as pessoas não pedalam — uma ciclovia com pouca presença no heatmap pode indicar que está mal localizada, é descontínua, ou tem má qualidade.

Quais são os eixos naturais de mobilidade — os percursos mais usados revelam onde existe procura real de mobilidade ativa, não apenas onde foi mais fácil construir.

Pontos de concentração e dispersão — onde as rotas convergem há potencial para nós de mobilidade; onde terminam abruptamente pode haver barreiras físicas ou de segurança.

Porque isto deveria informar políticas públicas

Em Portugal, as decisões sobre ciclovias são frequentemente tomadas com base em conveniência política, disponibilidade de espaço ou visibilidade mediática — não em dados de utilização real.

O heatmap inverte essa lógica: mostra onde as pessoas já estão, não onde se imagina que gostariam de estar.

Decisão sem dados

Ciclovias construídas onde havia espaço disponível ou onde o projeto era mais simples, sem relação com os fluxos reais de utilização.

Decisão baseada em evidência

Ciclovias priorizadas nos eixos com procura já demonstrada, ligando pontos existentes e eliminando barreiras identificadas no heatmap.

Uma câmara municipal que analise o heatmap da sua área antes de planear ciclovias consegue:

  • Priorizar troços com procura demonstrada
  • Ligar pontos já utilizados em vez de criar infraestrutura isolada
  • Identificar barreiras reais que impedem a continuidade de percursos
  • Justificar investimento com dados objetivos perante assembleias municipais e candidaturas a fundos europeus

Limitações a ter em conta

O Strava tem um viés de utilizador: regista sobretudo ciclistas que já pedalam com regularidade e usam smartphone. Quem não pedala por falta de segurança — precisamente as pessoas que infraestrutura melhor serviria — não aparece no mapa.

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Subestimação sistemática: as zonas sem dados no heatmap não são zonas sem interesse — podem ser zonas onde o risco percebido é demasiado alto para que alguém arrisque pedalar.

Isso significa que o heatmap subestima a procura potencial. Usado com esse contexto, é uma ferramenta poderosa. Ignorado, é mais uma oportunidade desperdiçada de tomar decisões baseadas em evidência.

Referências

  • Dados e Estudos. Fonte: compilação de estudos científicos em Dados e Estudos. Contexto para leitura de dados urbanos.
  • Impacto social. Fonte: artigo relacionado do projeto. Efeitos de infraestrutura e uso real.
  • Recursos. Fonte: artigo relacionado do projeto. Materiais relacionados.