As 10 medidas para promover a bicicleta rumo à COP31
Pontos-chave
- A COP 31 Bike Ride é uma estafeta internacional que pedalará do Brasil até à Turquia, passando por Portugal no dia 28 de junho de 2026.
- A ministra do Ambiente receberá em Oeiras dez medidas de promoção da bicicleta para entrega ao Governo português.
- A CCDR Lisboa e Vale do Tejo desafiou os 52 municípios da região a adotarem estas medidas até 2030.
- Se 80% das viagens em cidades fossem feitas a pé, de bicicleta ou em transporte público, as emissões seriam 50% inferiores.
As propostas aprovadas na COP30 no Brasil estão a viajar de veleiro para Portugal. A bordo, um testemunho com dez propostas para promover a bicicleta como ferramenta de combate às alterações climáticas — e um destino final: Antália, na Turquia, onde em novembro de 2026 decorrerá a COP31.
No dia 28 de junho, em Oeiras, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, receberá pessoalmente as propostas da iniciativa COP 31 Bike Ride. Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras, anunciará medidas para reforçar a prática do ciclismo no concelho e lançará a 3.ª edição da COP Oeiras Valley.
Uma estafeta de uma COP para a COP seguinte
A COP Bike Ride é uma iniciativa global de cidadãos que consiste em pedalar de uma COP para a seguinte, com o objetivo de promover o uso da bicicleta e contribuir para reduzir as emissões de CO₂. No ano passado, a estafeta atravessou Portugal no percurso do Azerbaijão até ao Brasil, entregando Cartas de Compromisso a 60 regiões e municípios, das quais nove portuguesas.
Esta edição pretende superar esse número. A passagem oficial de testemunho no Porto de Recreio de Oeiras ocorrerá às 10h, com partida da estafeta às 12h. A primeira paragem será no Quiosque de Mobilidade Oeiras Move de Algés. Após almoço oferecido aos participantes internacionais, a estafeta parte pelas 14h30 em direção a Lisboa.
A iniciativa é promovida, em Portugal, pelo Pacto Climático Europeu, por vários municípios e pela Ecomood Portugal. Estima-se que envolvam cerca de dez mil ativistas de mais de 20 países.
O argumento dos 75%
Por detrás das dez medidas existe um dado que raramente chega ao debate público:
"Se as quotas dos transportes públicos, da caminhada e do ciclismo atingissem 80% das viagens nas nossas cidades, as emissões seriam 50% inferiores. Como 75% das deslocações nas cidades têm menos de cinco quilómetros, muito mais pessoas deviam ter condições para andar de bicicleta e cerca de metade das entregas urbanas podiam ser feitas por bicicletas de carga em vez de carrinhas."
— António Gonçalves Pereira, Ecomood / Climate Alliance Portugal
Cinco quilómetros são, em terreno plano, cerca de 15 a 20 minutos de bicicleta. Para a maioria das pessoas, é uma distância perfeitamente ciclável — desde que existam condições para tal.
O desafio à região de Lisboa
A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT) já desafiou os 52 municípios da região a adotarem as dez medidas até 2030. O apelo da organização ao Governo é igualmente claro:
"Apelamos à ministra Maria da Graça Carvalho que assuma publicamente a adesão do Governo às propostas da COP Bike Ride, uma vez que há na sociedade portuguesa um largo consenso a esse respeito. A cidadania contemporânea exige, cada vez mais, condições para o uso da bicicleta e de outros modos de mobilidade suave."
— António Gonçalves Pereira, coordenador da iniciativa em Portugal
As 10 medidas propostas de promoção da bicicleta
As propostas são inspiradas no conceito "Caminhar-Pedalar-Passear" (Walk-Cycle-Ride, na sigla inglesa). Aqui estão as dez medidas tal como foram definidas:
- Concluir uma rede estrutural básica de ciclovias até 2030, especialmente com conectividade intermunicipal e multimodal para deslocações diárias. Se a base já estiver estabelecida, torná-la ainda mais ambiciosa.
- Reduzir o tráfego de automóveis, limitando a velocidade e o volume.
- Elaborar planos específicos até 2030, abrangendo todas as alavancas possíveis para o desenvolvimento da utilização de bicicletas — com financiamento adequado e dedicado, e revisões de implementação que incluam as associações e coletivos de utilizadores de bicicletas.
- Aumentar significativamente as áreas exclusivas para bicicletas e caminhadas até 2030, perto de escolas, centros de transporte público, comércio local e áreas verdes.
- Generalizar a capacidade adequada de armazenamento de bicicletas em centros de transporte, áreas comerciais, escolas, escritórios e residências até 2030 — incluindo bicicletas de carga.
- Desenvolver um calendário e um espaço para o ciclismo: um evento anual de ciclismo em massa para todas as idades, para promover a participação de um público amplo, e uma "casa da bicicleta" para reparar, treinar, reunir e acolher.
- Treinar e informar: capacitar especialmente menores de 12 anos e mulheres para uma utilização mais eficiente e empoderadora da bicicleta; promover os benefícios financeiros (o custo anual de um carro é dez vezes maior do que o de uma bicicleta).
- Desenvolver o setor económico associado — serviços, manufatura, leasing, partilha — por meio de incentivos e subsídios fiscais específicos.
- Desenvolver a logística de bicicletas de carga para entregas na "última milha". Um estudo recente mostra que 42% das entregas em carrinhas poderiam ser feitas com bicicletas de carga.
- Implementar e divulgar regularmente indicadores para medir e monitorizar a situação: satisfação dos utilizadores, acidentes, dimensão da rede dedicada, integração intermodal.
Porquê estas medidas?
Cada uma das dez medidas aborda um obstáculo real à utilização da bicicleta no dia a dia. A rede de ciclovias sem conectividade não serve para deslocações pendulares. O estacionamento de bicicleta inexistente impede quem quer usar a bicicleta no trabalho. A ausência de formação afasta crianças e mulheres — dois dos grupos com menor taxa de utilização.
A medida sobre bicicletas de carga merece atenção especial. Se 42% das entregas urbanas em carrinha podem ser substituídas por bicicletas de carga, estamos perante uma transformação possível da logística urbana — sem grandes investimentos em infraestrutura, apenas com uma mudança de ferramenta.
E a medida dos indicadores fecha o ciclo: sem dados sobre o que funciona, é impossível saber onde investir.
O que acontece a seguir
Após a receção em Oeiras, o testemunho seguirá de bicicleta através da Europa até Antália, na Turquia, onde a COP31 decorrerá entre 9 e 20 de novembro de 2026. As propostas serão apresentadas e discutidas no contexto das negociações climáticas internacionais.
Em Portugal, o acompanhamento dependerá da resposta do Governo e dos municípios ao desafio lançado pela CCDR-LVT. A pergunta que fica é simples: quantos dos 52 municípios irão responder?