Uma ilustração editorial de uma trotinete partilhada, um telemóvel com gráficos abstratos e uma lupa a examinar informação.

A resposta da Bolt à suspensão em Lisboa: o que afirma, o que se pode verificar e o que falta

A resposta da Bolt à suspensão em Lisboa: o que afirma, o que se pode verificar e o que falta

Pontos-chave

  • Depois da decisão, só a Bolt tem voz própria (TSF, 22 de outubro, e Lusa, 23 de outubro) nas peças que lemos: antes havia o título do Expresso (16 de outubro) e uma declaração conjunta com a Lime e a Bird em agosto. Passou a haver texto: uma notícia da Lusa de 23 de outubro e uma série de quatro imagens da empresa sobre o referendo do ACP.
  • Tudo o que a Bolt diz são declarações da empresa: não localizámos nenhum dos números numa fonte independente nem num documento municipal.
  • Há um número novo que preenche parte do «denominador» que faltava no debate: 42 milhões de km percorridos desde 2023. Equivale a cerca de 14 incidentes comunicados por milhão de km (CÁLCULO), mas sem definição de «incidente», sem repartição por ano e sem comparação com outros modos, não permite concluir se é muito ou pouco.
  • Os números da Bolt e os da Câmara não são comparáveis: universos, períodos e definições diferentes (incidentes comunicados à operadora vs. pessoas levadas ao hospital pelo INEM).
  • A Bolt diz cumprir o que o acordo de 2023 exige (20 km/h, estacionamento só em locais definidos) e que ~70% dos cerca de 1.900 locais designados ficam em passeios, escolhidos pelo município. Se verdadeiro, desloca parte da discussão do estacionamento da operadora para a rede de locais.
  • Porque é que estes números só aparecem agora? Antes da decisão, o ACP, os operadores (em agosto) e a Câmara apresentaram números nacionais, ou locais sem quilómetros nem viagens; Lime e Bird não têm posição nem dados próprios nas fontes lidas. Não sabemos porquê e não atribuímos intenções; as perguntas que se podem verificar estão em Os acordos, os dados e o incumprimento alegado.
  • Os dados existem (análise) (a Bolt produziu-os; o geofencing e o limite de velocidade que a empresa descreve pressupõem localização por GPS da frota; sinistros e intervenções ficam registados para os seguros, INFERÊNCIA). Não está demonstrado que a Câmara não os pediu; está demonstrado, nas peças lidas, que a justificação pública não os cita. É compatível com o que a IL pede (demonstração e recolha de dados), mas a IL não diz que não foram pedidos.
  • Falta caracterizar quem são os 78% (análise) e quem sofre os danos que a Câmara invoca. «Residentes» não é «nacionais», e a ligação ao transporte público é calculável com os registos de viagem, mas não foi calculada.
  • A Bolt propõe alargar a oferta de bicicletas elétricas partilhadas, sem calendário nem números. É o ponto que mais interessa a quem anda de bicicleta e o que está menos detalhado.

O que isto significa para quem anda de bicicleta: a resposta da Bolt acrescenta, pela primeira vez, números de exposição (km) e de localização do estacionamento, mas todos vêm da empresa. Não demonstra que a suspensão fosse desnecessária, nem que fosse necessária. Para as bicicletas, a parte útil é a possível oferta de bicicletas elétricas partilhadas, que só interessa se vier com estacionamento, ciclovias e segurança, as mesmas perguntas que se colocam às trotinetes.

Este artigo completa Lisboa aprovou, onde registámos que não localizávamos a pronúncia dos operadores. Reúne o que a Bolt afirmou em duas fontes e separa o que é declaração da empresa, o que se pode calcular e o que continua por saber. Não tomamos partido pela medida nem pela empresa e não atribuímos intenções a nenhuma das partes.

1. O que lemos, e o que não sabemos sobre as fontes

  • Notícia da Lusa, 23 de outubro de 2026, na Algarve Daily News (em inglês; foto atribuída ao Expresso). Texto lido por extração. FACTO: é um relato da posição da Bolt, não uma verificação.
  • Quatro imagens divulgadas pela Bolt («O que se está a passar com as trotinetes em Lisboa?», «6 anos de melhoria», «O resultado», «O Referendo»). Chegaram-nos como imagens, sem a ligação nem a data de publicação. O conteúdo fala do referendo do ACP como proposta («pode resultar») e não refere a votação de 21 de outubro, o que sugere que são anteriores à deliberação (INFERÊNCIA). Não reproduzimos as imagens: citamos o texto.
  • TSF, 22 de outubro de 2026 (Carolina Soares Borges), entrevista a Frederico Venâncio, responsável de micromobilidade da Bolt Portugal: a suspensão é «exagerada» e «quem vai perder é Lisboa»; o protocolo tinha «três premissas» (redução de frota, de velocidade e estacionamento); «nenhum dos veículos passa de 20 quilómetros por hora»; «70% dos pontos disponibilizados pelo município são no passeio»; Lisboa é «uma percentagem muito grande de todo o negócio em Portugal»; falou com a Câmara na sexta-feira e aguarda «contacto formal»; vai concentrar-se nas bicicletas. Não traz os 78%, os 42 milhões de km nem os 608 incidentes (esses vêm da Lusa de 23 de outubro) e não diz que o 70% é de 1.900 locais.
  • RTP, entrevista à Bolt e declaração conjunta de Bolt, Bird e Lime (posterior ao início de agosto): pedem «regras municipais claras e proporcionais» e dizem que a proposta do ACP «associa um problema real a uma solução errada». Sem números de Lisboa.
  • Expresso, 16 de outubro: continua a ser só o título, «Bolt lamenta não ter tido oportunidade de discutir mudanças no sistema com a Câmara». O texto não foi lido.
  • DESCONHECIDO: se a Bolt falou também em nome da Lime e da Bird. As peças lidas só citam a Bolt; a posição conjunta dos três operadores que registámos em agosto era sobre o referendo.

2. As afirmações, uma a uma

A Bolt dizFonteEstadoO que falta
78% das viagens de trotinetes partilhadas em 2025 foram de residentes, sobretudo no primeiro e último quilómetro e para ligar aos transportes públicosLusaFACTO (declaração). CÁLCULO: restam 22% de não residentesTotal de viagens, definição de «residente» e como foi medido. Não localizámos a quota modal das partilhadas em Lisboa
Segue o acordo de 2023: velocidade máxima de 20 km/h e estacionamento só em locais definidos; a trotinete partilhada tem limitador, ao contrário das particularesLusa; imagens («limitamos a velocidade a 20 km/h; a lei permite 25 km/h»)FACTO (declaração, coerente nas duas fontes). A diferença para as particulares é consistente com a classificação em três tiposTexto do acordo e fiscalização do cumprimento. Qualquer medição independente de velocidades
Os locais de estacionamento são definidos pelo município; cerca de 70% dos cerca de 1.900 ficam em passeiosLusa (e Notícias ao Minuto, já citada em Conflitos no espaço público)FACTO (declaração). CÁLCULO: ≈1.330 locais em passeios e ≈570 foraInventário municipal; quem decidiu cada local; capacidade por local (o número de locais não é o número de trotinetes)
Desde 2023 propôs «centenas» de alternativas, melhor sinalizadas e distribuídas, e ofereceu-se para financiar sinalização, marcações e estações de estacionamentoLusaFACTO (declaração)Quais foram propostas, quais aceites e porque não avançaram. A Câmara diz ter reunido com os operadores; as duas versões não se reconciliam com o que lemos
Os operadores pagam a fiscalização do seu lado: reboques, multas e armazenamentoLusaFACTO (declaração)Valores e número de remoções. Não confundir com a fiscalização das trotinetes particulares, que não é feita pelos operadores
608 incidentes comunicados desde 2023, em mais de 42 milhões de km; este ano, 0,5% classificados como gravesLusaFACTO (declaração). CÁLCULO: ≈14,5 por milhão de km (ver §3)Definição de «incidente» e de «grave», quem comunica, repartição por ano, e se o universo é só a Bolt ou todas as partilhadas
Dois seguros (acidentes pessoais e responsabilidade civil)ImagensFACTO (declaração)Capitais, exclusões e quem fica coberto (utilizador, terceiros). O ACP, segundo as imagens, alega «falta de seguros»; a Bolt responde sobre as suas trotinetes. INFERÊNCIA: as duas podem referir-se a universos diferentes (partilhadas vs. todas as trotinetes); as imagens não o explicitam
Seis anos de operação e «um dos sistemas de micromobilidade mais regulados da Europa»ImagensOPINIÃO da empresaNão há comparação com outras cidades nas imagens. Não localizámos um estudo comparativo
As trotinetes são «alternativa real ao carro» e complemento ao transporte públicoImagensDESCONHECIDODados sobre o que as viagens substituem (carro, transporte público, a pé, bicicleta). É a pergunta decisiva para o saldo para as bicicletas e continua sem número
Quer alargar o serviço de bicicletas elétricas partilhadas, como alternativa para quem usa trotinetes no dia a diaLusaFACTO (intenção declarada)Calendário, número de bicicletas, locais, preço e relação com a Gira. Sem compromisso municipal que conheçamos
O protocolo tinha três premissas (frota, velocidade, estacionamento); a velocidade está resolvida porque nenhuma trotinete passa de 20 km/hTSF, 22 de outubroFACTO (declaração). As três premissas coincidem com o que a imprensa descreve do acordo (os acordos)Medições independentes de velocidade; se a premissa da frota foi cumprida (a Câmara diz que a frota passou de cerca de 15.000 para cerca de 5.000)
Vai concentrar-se nas bicicletas e vê «possibilidade de continuar com as bicicletas»; aguarda contacto formal sobre prazosTSF, 22 de outubroFACTO (declaração). Coerente com a Câmara manter os acordos das bicicletas partilhadas (Gonçalo Reis)Dimensão atual da oferta de bicicletas da Bolt em Lisboa e eventual alargamento: sem números
As trotinetes ficam até à data da mudança; está disponível para discutir «um modelo que permita manter as trotinetes partilhadas na cidade»LusaFACTO (declaração)Resposta formal na audiência prévia. Continuamos sem a pronúncia dos operadores nem a notificação formal

3. O número novo: 42 milhões de quilómetros

No debate sobre as trotinetes faltava um denominador. A Câmara apresentou ocorrências (184 em 2023, 267 em 2025, segundo o documento citado pelo DN) sem viagens, frota nem quilómetros. A Bolt traz agora uma medida de exposição.

  • CÁLCULO: 608 incidentes ÷ 42 milhões de km ≈ 14,5 por milhão de km, ou cerca de um por 69.000 km.
  • O que este valor não é: não é uma taxa de lesões graves, não é comparável à das bicicletas ou dos automóveis (não localizámos quilómetros por modo em Lisboa) e não permite dizer se o risco por km aumentou ou diminuiu, porque falta a série anual.
  • 0,5% graves «este ano»: a base (quantos incidentes neste ano) não é dada. Sem ela não calculamos um número de casos, e não o fazemos por estimativa.
  • Não é reconciliável com o INEM: a Câmara conta pessoas levadas ao hospital, em todas as trotinetes (o DN assinala que não distingue partilhadas de particulares); a Bolt conta incidentes comunicados à operadora, só das partilhadas, e desde 2023. Colocar os dois lado a lado como se fossem a mesma coisa seria um erro. Ambos estão incompletos: um tem numerador sem denominador, o outro tem denominador sem a definição do numerador.
  • O que seria útil: que a Câmara e os operadores publiquem, por ano e por tipo de trotinete, viagens, km, incidentes por gravidade e fonte da classificação, e que se compare com a rede ciclável e com a Gira. É a mesma lista de Antes de proibir: seis perguntas e dos indicadores antes/depois.

4. 20 km/h em vez de 25: o que muda em energia

CÁLCULO: a energia cinética de um mesmo conjunto veículo+ocupante cresce com o quadrado da velocidade. Entre 20 e 25 km/h, a razão é (20/25)² = 0,64: a 20 km/h a energia é cerca de 36% menor, para a mesma massa. É uma ordem de grandeza física, não uma taxa de risco (porquê). O que isto não diz: se a velocidade real das partilhadas é 20 km/h na prática (não há medições independentes) e quanto pesa a velocidade na ocorrência de quedas, que dependem de pavimento, estacionamento, alinhamento com os peões e experiência do utilizador.

O ponto relevante para a discussão pública é outro: o limitador é uma característica da trotinete partilhada. As particulares não o têm necessariamente, e as que passam os 25 km/h ou os 250 W deixam de caber, em princípio, no conceito de velocípede (enquadramento jurídico por verificar). A Bolt faz essa distinção; os números do INEM citados pelo DN não a fazem, e a deliberação aplica-se às partilhadas. Voltamos assim à pergunta que a deliberação não responde: o que se faz com os veículos que não são partilhados.

5. Estacionamento: se os locais são do município, a responsabilidade desloca-se

A Câmara apresentou o estacionamento desordenado como um dos problemas. A Bolt responde que os locais são definidos pelo município e que cerca de 70% estão em passeios. Se ambas as coisas forem verdadeiras, há duas questões diferentes:

  • Estacionamento fora dos locais (irregular): é um problema de cumprimento, a fiscalizar, cujos custos a Bolt diz suportar. Não localizámos números de ocorrências nem de coimas.
  • Estacionamento nos locais designados em passeio: é uma decisão de desenho do espaço público. O problema para pessoas com mobilidade reduzida, invisuais e peões em geral, que a própria Bolt reconhece na notícia, existe mesmo com cumprimento total. É a discussão de Conflitos no espaço público, a que o mesmo desenho de rua se aplica a bicicletas e a carros estacionados.
  • DESCONHECIDO: quantos dos 1.330 locais em passeio foram propostos pela Câmara, quantos pelos operadores, e se foram revistos desde 2023.

6. O que isto significa para as bicicletas

  • A oferta de bicicletas elétricas da Bolt não substitui a Gira nem é um compromisso municipal. Se existir, estará exposta aos mesmos problemas: estacionamento em passeio, fiscalização, conflitos com peões e utilizadores sem experiência. As bicicletas elétricas partilhadas e as trotinetes partilhadas não são o mesmo risco, mas também não dispensam os dados que hoje faltam.
  • Já registámos (Lisboa aprovou) que o reforço ciclável prometido pela Câmara não tem metas. A resposta da Bolt não muda isso: troca uma promessa (municipal) por outra (de uma empresa).
  • O que a Bolt diz sobre a substituição do carro é a mesma pergunta que se faz às bicicletas: de onde vêm os utilizadores, e para onde vão quando o serviço acaba? Esse é o único dado que decidiria se retirar as trotinetes ajuda ou prejudica a bicicleta, e é o que falta aos dois lados (cenários).

7. O que acompanhar

  1. O texto integral da posição da Bolt na audiência prévia (se for tornado público) e a resposta da Câmara.
  2. A fonte e a definição de «incidente» e «grave» dos 608 incidentes e dos 42 milhões de km; repartição por ano.
  3. Se Lime e Bird divulgam números semelhantes, para somar universos, e se o acordo de 2023 obrigava os operadores a comunicar viagens, km e ocorrências (os acordos e os dados).
  4. O inventário municipal dos locais de estacionamento de trotinetes (quantos em passeio, capacidade, data e autor de cada decisão).
  5. O seguro: apólices e coberturas, e a diferença entre trotinetes partilhadas e particulares (Seguro obrigatório).
  6. Os registos de viagem que permitiriam caracterizar os utilizadores: quantas viagens começam ou acabam junto a transportes públicos, idades, horas e motivos (dados agregados e anonimizados).
  7. Qualquer compromisso concreto de bicicletas partilhadas (número, locais, calendário), da Bolt ou da Câmara.

Referências

Critério documental: todas as afirmações da Bolt são declarações da empresa, relatadas por uma agência de notícias e por imagens de comunicação da própria empresa; nenhuma foi verificada em fonte independente. «Não localizámos» não equivale a «não existe». Os cálculos usam apenas os números citados (608, 42 milhões de km, 70% de 1.900, 20 e 25 km/h) e não substituem taxas de risco. O artigo não toma posição sobre a medida da Câmara nem sobre o modelo da empresa. Fontes lidas a 25 de outubro de 2026.