Ilustração conceptual de um bairro ribeirinho, com passeio e ciclovia à superfície e estacionamento subterrâneo; não representa o empreendimento nem está à escala

Quanto espaço damos ao automóvel? O caso do Prata Riverside Village

410 lugares anunciados, perto de 1.900 a 2.100 no empreendimento: o que os documentos mostram

Pontos-chave

  • A notícia (que não conseguimos localizar na fonte original) fala em 410 lugares para automóveis, 6 para mobilidade condicionada e 12 para motociclos no parque Riverside, sem oferta anunciada para bicicletas. Esses 410 parecem ser os 408 lugares públicos em cave que o loteamento já previa: não são lugares «a mais» (INFERÊNCIA).
  • O empreendimento prevê 781 habitações e entre 1.867 e 2.096 lugares de estacionamento, consoante o documento (a avaliação ambiental diz 1.245 privados e 622 públicos; o estudo de tráfego, 1.474 privados e 622 públicos). A diferença de 229 lugares fica por explicar.
  • Em área, a estimativa é de 62 mil a 70 mil m² de estacionamento, contra 9.485 m² de espaços verdes cedidos ao município. É uma estimativa nossa, com pressupostos declarados, e compara funções, não terreno ocupado.
  • Tráfego projetado pelo estudo de 2022: 319 veículos na hora de ponta da manhã e 415 na da tarde, para os lotes por ocupar. Projeções, não contagens.
  • Contrapartidas: em 2017, o promotor ficou obrigado a suportar 3,82 milhões de euros em obras, incluindo 1,91 milhões do Parque Ribeirinho Oriente.
  • Bicicletas: há ciclovia e estação Gira na zona, e a avaliação ambiental pede «disponibilização comunitária de bicicletas», mas não localizámos nenhum número de lugares de bicicleta, ao contrário do que acontece para os automóveis.

O que isto significa para quem anda de bicicleta: a importância dada à bicicleta num projeto mede-se por números comparáveis aos do automóvel: lugares, área, medidas obrigatórias. Neste caso, os dados do automóvel estão nos documentos públicos e os da bicicleta não os localizámos. Não é prova de que não existam, mas é o que se pode pedir.

Este artigo parte de uma notícia e vai aos documentos. Não discute se este empreendimento é bom ou mau: pergunta quanto espaço, investimento e capacidade urbana se dedicam a cada modo, e o que se consegue comprovar. Segue a mesma lógica de Antes de proibir, aplicada ao estacionamento em vez das trotinetes.

Ilustração conceptual: representa a relação entre espaço público à superfície e estacionamento subterrâneo, não as plantas nem as proporções reais do empreendimento.

1. O que foi anunciado, e o que não conseguimos confirmar

  • Anúncio: segundo a notícia que serviu de base a este artigo (Notícias ao Minuto), a Câmara inaugurou o parque Riverside, junto ao Parque Ribeirinho Oriente, com 410 lugares para automóveis, 6 para pessoas com mobilidade condicionada e 12 para motociclos, sem oferta anunciada para bicicletas. Não localizámos a notícia nem o comunicado originais, nem a data exata: a coincidência com a votação de Lisboa de 21 de outubro (ver Lisboa aprovou) é cronológica, e não há documento que ligue as duas decisões.
  • Não são 410 lugares «a mais». O estudo de tráfego do loteamento (outubro de 2022) prevê 408 lugares públicos num parque subterrâneo nas caves dos lotes 1, 2 e 2A. A proximidade com 410 sugere que se trata do mesmo parque, já contado no total do empreendimento. É uma INFERÊNCIA; não a confirmámos.
  • Planos da EMEL: o texto-base cita os planos 2023–2026 e 2026–2029 da EMEL como origem do parque nas contrapartidas do licenciamento. Os documentos estavam inacessíveis quando tentámos abri-los (o site da EMEL em manutenção), por isso não os verificámos.

2. O empreendimento

O Prata Riverside Village (Marvila, junto ao Parque Ribeirinho Oriente) ocupa cerca de 8,92 hectares. O loteamento foi aprovado em 2008 (alvará n.º 02/2010) e tem sido alterado. As habitações previstas:

Versão do loteamentoHabitaçõesVariação
Aprovação inicial (2008)499—
1.ª alteração (2015)481−18
2.ª alteração (2017)499+18
3.ª alteração (2019)594+95 (+19,0%)
4.ª alteração (proposta)781+187 face à anterior; +282 (+56,5%) face à inicial

Fonte: página da consulta pública da 4.ª alteração (Participa, 7 de fevereiro a 21 de março de 2022). A avaliação ambiental acrescenta que o aumento de fogos se faz acompanhar de mais 180 lugares de estacionamento privado nos lotes, e que o estacionamento público «não sofre qualquer alteração». O estudo de tráfego descreve o empreendimento como um «loteamento de segmento superior».

3. Quantos lugares: dois documentos, dois totais

FontePrivadosPúblicosTotalPor habitação (781)
Avaliação ambiental da 4.ª alteração (EIA 1526/2021, parecer da CCDR-LVT)1.2456221.8671,59 privados; 2,39 no total
Estudo de Impacte de Tráfego e Transportes (outubro de 2022)1.474622 (408 em cave; os restantes à superfície, ou seja, 214)2.0961,89 privados; 2,68 no total
  • Os totais calculam-se somando as colunas (CÁLCULO); a repartição dos 214 à superfície resulta de 622 − 408. O texto-base falava em 1.244 privados e 1.866 no total, valores muito próximos da primeira linha.
  • A diferença de 229 lugares privados entre os dois documentos não está explicada. Pode resultar de versões, de usos incluídos (comércio, serviços) ou de erro de leitura. Usamos o intervalo, e não escolhemos um dos valores.
  • Face ao regulamento: a avaliação ambiental indica que, pelo PDM de Lisboa, o loteamento precisaria de 1.280 a 1.576 lugares privados (a proposta, com 1.245, ficaria 35 abaixo) e de 587 a 854 públicos (a proposta, com 622, ficaria 35 acima). O promotor alega que o excedente numa categoria compensa o défice na outra. A comissão de avaliação concluiu que haveria desconformidade no dimensionamento do estacionamento e no índice de edificabilidade (1,48, face ao máximo de 1,2 previsto no PDM), ressalvando entendimentos distintos, em particular o da Câmara. Esse entendimento ficou registado: as alterações não agravariam desconformidades já existentes. Segundo o mesmo documento, estava em apreciação a possibilidade de compensar o défice de lugares privados com o excedente de lugares públicos, em vias ou caves.
  • O que isto significa: os lugares públicos podem entrar na conta de estacionamento do próprio empreendimento (FACTO, no processo de licenciamento). Que, na prática, sejam usados sobretudo pelos moradores é uma hipótese a esclarecer, não uma situação demonstrada.

4. Quanto espaço: uma estimativa, não uma medição

Não obtivemos a área construída das garagens. Para dar ordem de grandeza, usamos pressupostos indicativos: 35 m² por lugar em cave (com circulação e manobras) e 20 m² por lugar à superfície, supondo que todos os privados e os 408 públicos ficam em cave e os 214 restantes à superfície.

GrandezaCom 1.867 lugaresCom 2.096 lugares
Estacionamento estimado (CÁLCULO com os pressupostos acima)≈ 62.100 m²≈ 70.200 m²
Espaços verdes cedidos ao município (documento)9.485 m²
Estacionamento estimado ÷ espaços verdes cedidos≈ 6,6 vezes≈ 7,4 vezes
Superfície de pavimento do loteamento (documento)132.485 m²
Estacionamento estimado ÷ superfície de pavimento≈ 47%≈ 53%
  • Cedências ao município: segundo a avaliação ambiental, foram cedidos 36.943 m², distribuídos por vias, estacionamento e passeios (cerca de 20.918 m²), espaços verdes (cerca de 9.485 m²) e equipamento (cerca de 6.540 m²).
  • Ressalvas de comparação: o estacionamento distribui-se por vários pisos, enquanto os jardins ocupam terreno à superfície. Por isso, não dizemos que «seis hectares de jardins foram trocados por garagens»: comparamos a quantidade de infraestrutura construída para funções diferentes. A superfície de pavimento e a área das caves não são contabilizadas da mesma forma. Somando apenas as caves estimadas à superfície de pavimento, as garagens corresponderiam a cerca de 30% a 33% do conjunto.
  • Não estão incluídos os arruamentos, os cruzamentos e os acessos rodoviários.

5. Tráfego: o que se projeta

O estudo de tráfego de outubro de 2022 estima, para os lotes por ocupar, uma geração adicional de 319 veículos na hora de ponta da manhã (141 a entrar e 178 a sair) e de 415 na da tarde (235 a entrar e 180 a sair), em dia útil. São projeções, calculadas com índices por habitação e por área comercial, e não contagens depois da conclusão. Não se podem multiplicar por um número de horas para obter viagens diárias: isso exige o quadro de geração diária e as contagens de referência, que não localizámos.

Na consulta pública da avaliação ambiental, entre as discordâncias registadas estavam o aumento do número de fogos e a pressão sobre infraestruturas e espaços públicos, o aumento do parque automóvel e as suas consequências no estacionamento existente, e a «inexistência de alternativa no projeto» que colmate esse aumento (relatório da consulta). São posições de participantes, não conclusões da avaliação.

6. E a bicicleta? O que está e o que não localizámos

DimensãoAutomóvelBicicleta
Lugares de estacionamento1.867 a 2.096 no empreendimento (documentos), dos quais 622 públicosNão localizámos nenhum número (privados nas garagens, junto ao comércio ou públicos)
Dimensionamento regulamentarPDM de Lisboa (arts. 75.º e 76.º): mínimo e máximo calculados e confrontados com a propostaNão verificámos o que o PDM exige para bicicletas neste caso
Medidas da avaliação ambiental (fase de exploração)Dotar todas as frações de 1 carregador para veículo elétrico no seu lugar de estacionamento (descrito como característica do projeto)«Assegurar a disponibilização comunitária de bicicletas e outros modos de deslocação suave» (genérico, sem número)
Estudo de tráfegoGeração de 319 e 415 veículos nas horas de ponta, com índices por habitaçãoBenefícios da bicicleta e rede ciclável em texto e mapa; não localizámos estimativa de viagens de bicicleta
Anúncio da Câmara (410 lugares)410 lugares + 6 + 12 motociclosNenhuma oferta anunciada
Infraestrutura próxima—Ciclovia ribeirinha e estação Gira, segundo o texto-base (a localização da estação não foi por nós confirmada); a EMEL requalificou a ciclovia ribeirinha em Braço de Prata (Lisboa para Pessoas, janeiro de 2025)

FACTO: há alternativas ao automóvel na zona: o estudo de tráfego refere a proximidade a transporte coletivo e à rede ciclável, e o texto-base menciona a estação ferroviária de Braço de Prata, carreiras da Carris, uma estação Gira e a ciclovia ribeirinha (estes quatro itens não os verificámos). O que se pode comparar: os documentos do automóvel têm números, regulamento e medidas específicas; os da bicicleta, nos que consultámos, têm intenções gerais. Pode haver lugares de bicicleta previstos noutros documentos do processo (memória descritiva, projetos de especialidade) que não analisámos, e é por isso que o artigo formula perguntas em vez de afirmar ausência.

7. As contrapartidas: o que se pode afirmar

  • Em 2017 (Lusa, 10 de julho), a Câmara discutia uma alteração ao loteamento que obrigava a um aditamento ao contrato de urbanização de 2009 com o promotor (o fundo Lisfundo). Entre as obrigações: manter o nível de uma rotunda, semaforizar outra, alargar a intervenção junto à antiga rotunda da INDEP, intervir nas infraestruturas do subsolo e reforçar o financiamento das obras no Parque Ribeirinho.
  • Valores: o total de obras a suportar pelo promotor era de 3.823.671 €, dos quais 1.906.880 € para o Parque Ribeirinho Oriente: o município executaria a parte poente, com o custo atribuído ao promotor. A empreitada do parque estava estimada em 3.110.491 €, numa área de quase quatro hectares.
  • CÁLCULO: 1.906.880 ÷ 3.110.491 ≈ 61%, se os dois valores se referirem à mesma obra, como a notícia sugere. O custo final do parque (outras fontes falam de 3,85 milhões de euros) e a forma como o restante foi financiado não os verificámos.
  • Conclusão limitada: parte dos equipamentos públicos da zona resulta de obrigações do promotor, e não apenas de investimento municipal autónomo. Isto é um mecanismo normal de planeamento, e não é, por si, uma irregularidade.
  • Hipótese a esclarecer: uma infraestrutura recebida como contrapartida pode ser formalmente pública e servir, na prática, sobretudo o empreendimento (por exemplo, por avenças de residentes). Não sabemos se é o caso. Seria preciso o contrato de exploração, os critérios de acesso, as tarifas e o número máximo de avenças.

8. Perguntas que os documentos não respondem

  1. Quantos lugares de bicicleta estão previstos: privados (garagens e edifícios), públicos (junto ao comércio e aos serviços) e nas paragens de transporte?
  2. Porque é que o estudo de tráfego prevê 1.474 lugares privados e a avaliação ambiental 1.245? Qual é o valor em vigor?
  3. O parque Riverside é o parque público de 408 lugares do loteamento, ou um acréscimo? Que regime de exploração, que tarifas, e quantas avenças para residentes?
  4. Qual foi o custo final do Parque Ribeirinho Oriente e que parte foi paga pelo promotor?
  5. Que medidas foram impostas ao promotor para reduzir a dependência do automóvel, além do carregador elétrico por fração e da bicicleta comunitária?
  6. Qual é a geração diária de viagens do empreendimento e qual a repartição modal assumida?

Conclusão: a importância mede-se em números

O que os documentos mostram é uma assimetria de informação: para o automóvel há lugares contados, áreas calculáveis, fluxos projetados e medidas específicas; para a bicicleta há uma ciclovia, uma estação Gira e uma intenção genérica, sem número que se possa comparar. Isso não prova que a bicicleta tenha sido ignorada: pode haver estacionamento de bicicletas previsto em documentos que não vimos. Mas é a base para o pedido: as mesmas exigências de dados para todos os modos, no estacionamento como nas trotinetes (Antes de proibir).

A pergunta de síntese: se a cidade conta ao lugar o que reserva ao automóvel, porque não conta também o que reserva à bicicleta? Uma política de mobilidade mede-se pelo espaço que reserva a cada modo e pelas condições que dá a quem escolhe não usar o carro.

Referências

Critério documental: distinguimos factos demonstrados pelas fontes, cálculos reproduzíveis, inferências marcadas como tais e informação que não foi possível confirmar. «Não localizámos» não equivale a «não existe». As áreas de estacionamento são estimativas com pressupostos indicativos (35 m² por lugar em cave, 20 m² à superfície), não medições de plantas; os fluxos de tráfego são projeções do estudo de 2022, não contagens; a eventual utilização do parque público pelos moradores é uma hipótese. Os documentos do licenciamento são versões de datas diferentes e os totais de estacionamento não coincidem, o que o artigo regista. Não atribuímos intenções ao promotor nem à Câmara. Fontes consultadas em 24 de outubro de 2026.