Ilustração de uma razia a um ciclista numa estrada ao anoitecer, com uma abóbora de Halloween à porta de uma casa.

Neste Halloween, o que realmente assusta

Há sustos que acabam quando se tira a máscara. Outros acompanham-nos no caminho para casa.

No Halloween, brincamos aos sustos. Há abóboras à janela, fantasmas de papel e monstros que, no fim da noite, voltam para a caixa.

Mas há um medo que não se arruma com as decorações.

É o medo de quem anda de bicicleta e sabe o que é uma razia.

O susto que fica no corpo

O motor a aproximar-se por trás. O carro a passar demasiado perto. O ar a deslocar-nos, o guiador a tremer, o coração a disparar. E aqueles segundos em que continuar de pé parece depender de centímetros.

Assusta ter de sair da estrada para escapar. Atirar-se para a berma, para a terra, para onde houver espaço, porque alguém decidiu ultrapassar sem o ter. Depois, parar, respirar e perceber que o trajeto ainda não acabou.

Mesmo quando não há colisão, o susto aconteceu. Fica na próxima vez que se ouve um motor. Na escolha de um caminho mais longo. Na hesitação antes de sair de casa.

O medo também deixa bicicletas em casa

Este medo chega também a quem gostaria de começar a pedalar. A possibilidade de uma razia ou de uma colisão pode pesar na decisão de deixar a bicicleta em casa. O receio do trânsito é uma das principais barreiras ao uso da bicicleta identificadas na investigação.

Uma revisão sistemática de 45 estudos e relatórios, de Pearson e colegas, publicada na revista Transport Reviews (2023), identificou as principais barreiras como estando relacionadas com circular na estrada junto de veículos motorizados. A síntese da equipa da Universidade Monash destaca precisamente as preocupações de segurança associadas a essa convivência.

Em Inglaterra, o National Travel Attitudes Study, realizado em 2023 e publicado em 2024, recolheu respostas de 2.011 pessoas. As preocupações com a segurança foram a barreira mais referida para não andar de bicicleta ou não andar mais vezes: 48%, à frente do mau tempo (36%) e da distância aos destinos (33%). No mesmo inquérito, 61% apontaram estradas mais seguras como incentivo para pedalar mais, a opção mais escolhida.

São resultados internacionais sobre barreiras declaradas, não percentagens da população portuguesa nem uma prova de que uma única medida basta. Mas dão força a uma exigência: para convidar mais pessoas a pedalar, é preciso criar percursos onde se sintam e estejam seguras.

No Halloween, o medo faz parte da brincadeira. Na escolha de como ir trabalhar, à escola ou às compras, pode fechar uma possibilidade de deslocação. Ninguém deveria precisar de vencer o medo do trânsito para poder usar uma bicicleta.

As pessoas por trás das notícias

Assusta ver ciclistas mortos e feridos. Ver uma bicicleta no chão e pensar em quem saiu para trabalhar, ir às compras, treinar ou simplesmente dar uma volta.

Há uma pessoa por trás de cada notícia. Há família, amigos, planos e uma vida que não devia ter sido interrompida naquele caminho. Há quem sobreviva e tenha de enfrentar dores, tratamentos e um regresso difícil à vida de antes.

Voltar a casa não pode depender de todos os condutores fazerem tudo bem, em todos os momentos. A estrada tem de proteger as pessoas também quando alguém falha.

Assusta que o perigo continue à espera

E assusta voltar ao mesmo lugar e encontrar tudo na mesma. A mesma estrada sem alternativa protegida. A mesma velocidade. A mesma possibilidade de uma ultrapassagem perigosa.

Onde faltam ciclovias segregadas, velocidades mais baixas e fiscalização efetiva, o medo não se resolve com um cartaz a pedir cuidado. Nem com a recomendação de que seja sempre quem vai de bicicleta a adaptar-se ao perigo.

Precisamos de decisões com orçamento, calendário e resultados que se possam verificar:

  • Ciclovias fisicamente segregadas e contínuas onde a velocidade e o volume de tráfego exigem proteção, com cruzamentos e acessos desenhados para evitar conflitos.
  • Redução efetiva da velocidade, com limites adequados e ruas que levem a abrandar. Colocar um sinal é apenas uma parte do trabalho.
  • Fiscalização a sério: regular, consequente e dirigida à velocidade, às ultrapassagens perigosas, à distração e aos comportamentos que põem vidas em risco.

Estas exigências têm fundamento: a Organização Mundial da Saúde recomenda uma abordagem que combine infraestrutura, legislação e fiscalização. A Comissão Europeia identifica a separação do tráfego motorizado como uma medida para reduzir colisões com bicicletas.

O medo não devia fazer parte do percurso

Neste Halloween, podemos rir dos fantasmas e pregar sustos uns aos outros.

Mas as razias, as fugas para fora da estrada e as vidas interrompidas exigem uma resposta que dure para lá de uma noite.

Queremos poder escolher o susto do Halloween. E fazer o caminho para casa em segurança, todos os dias.

Cartaz vertical: Neste Halloween, o que realmente assusta. Razias. Medo. Vidas interrompidas. Ciclovias segregadas. Menos velocidade. Fiscalização a sério.
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Estudos sobre as barreiras ao uso da bicicleta

Consulta também a seleção enquadrada em Dados e estudos: medo do trânsito e barreiras ao uso da bicicleta.

Artigo de opinião. Fontes sobre prevenção consultadas em 31 de outubro de 2026.